A HUMANIDADE SÓ SERÁ MELHOR SE CUIDARMOS DA PRIMEIRA INFÂNCIA...EU TAMBÉM ESTOU NESSA DE LEVAR ESSE MOVIMENTO DO FILME E A CAUSA PARA MAIS PESSOAS NO BRASIL E NO MUNDO

O Filme "O Começo da Vida" iniciou um movimento pela causa da primeira infância, período que vai do nascimento aos seis anos, para mostrar a importância dos primeiros anos de vida na formação de cada indivíduo, pois a Ciência nos traz evidências de que o pleno desenvolvimento no começo da vida é essencial para a construção de uma sociedade mais justa. Acreditamos que mudar o começo da história é mudar a história toda.
O documentário retrata famílias de diferentes culturas, nacionalidades e realidades socioeconômicas revelando aquilo que nos torna diferentes e o que é essencial para todos. É uma produção da Maria Farinha Filmes, com direção de Estela Renner, e percorreu os quatros cantos do mundo para mostrar que os primeiros anos na vida da criação são cruciais para uma sociedade mais justa e fraterna. O filme está sendo exibido na plataforma VideoCamp e na Netflix.
Refletamos junt@s, enquanto sociedade: será que estamos cuidando bem deste momento único da vida que determina tanto o presente quanto o futuro da humanidade? “Como posso contar bem aventurança se o começo da vida não é levado em conta?”
As relações mãe, pai, filho e a importância desses vínculos para o bom desenvolvimento da criança.
O universo conspira para que haja uma mudança significativa na relação pais e filhos. Ser pais que estão aí para os filhos em todas as horas, pais humanizados, empoderados e participativos, é não esta à toa no mundo.
Pensar na infância dos nossos filhos, na infância que tivemos, poder conversar abertamente com nossos pais e conhecer suas histórias, apenas torna-nos mais fortes e menos preconceituosos diante da diversidade da vida
“Os seres humanos aprendem mais – e mais rápido – da gestação aos três anos do que em todo o resto de suas vidas”
A gente não pode ser pai, sem antes ser filho, sem antes ser neto. A gente constrói a nossa vida, a nossa percepção do mundo em acordo com o modo em que fomos apresentados ao mundo e nossos guias são os pais, a família. Passar valores não é “fulaninho você tem que fazer tal coisa como eu faço”, e sim permitir que essa criança observe, absorva e participe ativamente da família. Entender que tudo é aprendizado para a criança. O contato, o brincar, o tempo, a contemplação, a birra tudo é instrumento para o fortalecimento cognitivo e emocional da criança. A infância é tão fundamental na construção do ser humano e, ao mesmo tempo, passa tão rápido que por vezes deixa de ganhar a devida importância. Criança precisa de cuidado e não de negligencia.
Qualidade precisa de quantidade, afeto cura e educa, diálogos olhos nos olhos fazem toda a diferença, entrar no mundo infantil é participar ativamente e contribuir para o fortalecimento da segurança da criança no universo.
A percepção de que o mundo possui os dois lado ou até mais é necessaário na formação do ser humano.Por isso é importante a participação do pai na apresentação do mundo além da visão da mãe, no enraizamento pelo contato com os avós, a sensação de pertencimento a algum lugar, o valor do lúdico, o brincar livremente e sem o condicionamento do adulto, permitir o uso do espaço e do nele contido para a criança criar, a importância do exemplo, o comprometimento das famílias com os pais da criança e com a própria criança, que família vai muito além das figuras mulher e homem, e, claro, o papel fundamental da sociedade (governos, entidades, organizações não governamentais, pessoas de bem) no levante para desencadear a transformação que o mundo reclama.
“Nossos bebês são lindas sementes e é nosso papel, enquanto sociedade, preparar o solo e tornar a terra fértil para ver brotar e florescer todo o seu potencial.
A seguir, entrevista da psicalista Vera Iaconelli sobre as relações mãe, pai e filhos. Vera é uma das especialistas que dão seu depoimento no filme “O Começo da Vida”. Neste post, Vera discute temas como as novas estruturas familiares, a maternidade, a paternidade e os preconceitos que ainda persistem nessas relações.
Fundação Maria Cecília Souto Vidigal – No filme “O Começo da Vida”, você faz vários depoimentos. Em um deles você define bem as relações mãe, pai, filho e a importância desses vínculos para o bom desenvolvimento da criança.
Vera Iaconelli – Bate-se muito na tecla mãe e bebê, mas existe o pai e outros agentes do entorno para participar do desenvolvimento da criança. No caso do pai, ele é o lastro e o trampolim para a coletividade, porque mostra à criança que a vida vai além da mãe. Ainda vivemos uma idealização feroz da maternidade e, ao mesmo tempo, uma desconstrução de alguns paradigmas. No entanto, temos de saber a medida certa, tomar cuidado para não exagerar, não normatizar, para não trocarmos simplesmente uma norma por outra.
FMCSV – Uma idealização que ressalta a mãe supermulher, que dá conta de tudo…
VI – Exatamente. Fantasia-se demais sobre essa figura, colocando o bebê sob seus cuidados, desonerando todos os outros da responsabilidade pela criança, seja o pai, os familiares ou o Estado. É claro que existem interesses econômicos em jogo aí também. Há também uma visão de pais e mães como heróis, uma idealização que nos é muito cara, porque esses pais e mães acabam tendo muita dificuldade de sair desse lugar narcísico. Essa onipotência cria dificuldades para fazermos pelos nossos filhos o que é possível em uma conjuntura social que é individualista. Hoje os pais de diferentes famílias não se ajudam, não trocam. Quando acontece algo com os filhos, eles correm até o especialista, fazem pesquisas na internet, mas não se conversam. Não se colocam entre pares.
FMCSV – No caso da mãe, parece que essa idealização é mais potencializada
VI – O nascimento do bebê é a fase onde essa idealização é mais clara. Ouve-se muito que ser mãe é alcançar a plenitude da mulher, que ao olhar para o recém-nascido ela pensa “sempre te amei”. Mas a realidade não é essa. O bebê é desconhecido até nascer e leva um tempo para vir a sê-lo. Nem a mãe, nem as pessoas a sua volta entendem, de fato, o que é o parto, ter um bebê, adotar uma criança. Tudo isso é um estranhamento natural estrutural necessário. Além disso, a mulher passa por uma série de experiências muitas vezes traumáticas. Várias mães sofrem violência obstétrica, passam por constrangimentos, em alguns casos, são medicadas sem necessidade, atos que denotam negligência sobre o corpo da mulher porque acontecem dentro de uma instituição que, a priori, deveria cuidar dessa mãe. Tudo isso dificulta o encontro delicado entre mãe e bebê. Não esqueçamos que essas experiências também têm efeitos sobre os pais, embora nunca se fale disso.
FMCSV – Falando em pai, como ele fica nessa história? Cada vez mais há o entendimento de que ele deve participar de tudo, desde o pré-natal, mas nem todos ainda aderiram a essa postura.
VI – Muitos ainda acreditam que o papel do pai é “ajudar” a mãe. Na verdade, ele tem o mesmo compromisso de cuidar da criança. Precisamos conscientizá-lo disso. Historicamente, os homens são criados para acreditar que não têm competências para a paternidade. Na infância, por exemplo, não são autorizados a brincar com bonecas, de casinha, ainda que o desejem. A maneira como são educados dá a entender que essas tarefas são pouco viris, que não são coisas de homem, mas na vida adulta são cobrados a participar, o que é um paradoxo. Eles têm de aprender como ser pais e muitos sofrem preconceitos. Aqueles que ultrapassam essa barreira, às vezes têm de vencer outra: o ressentimento da mãe que acha que ela deveria dar conta de tudo sozinha, ou seja, que uma boa mãe não precisaria de ajuda para cuidar do filho. Isto tem efeitos sobre o casal, pois a entrada do homem nos cuidados com a criança pode ser atrapalhada, especialmente se o pai sabe como agir, quando esbarra na fantasia de onipotência da mãe, essa idealização de perfeição que ela carrega. Nesse desencontro, muitos casais se separam ou ficam estremecidos. Quando os casais se dedicam aos filhos equilibradamente, as chances da relação dar certo são bem maiores. Ainda há muita confusão nessa comunicação entre mãe e pai, mas a tendência é melhorar. Por isso, é essencial que existam políticas públicas que apoiem as famílias, oferecendo condições para que assumam os seus papeis.
FMCSV – No filme “O Começo da Vida” você chama atenção às novas configurações familiares e como é importante vencer preconceitos.
VI – Com certeza. O preconceito é algo que perpassa a todos e que precisa ser enfrentado diariamente. A arte e a ciência têm importante papel na mudança desse olhar, transformando mentalidades e legitimando as novas configurações. Cada vez mais as pessoas estão trabalhando esses conceitos de família e não tem como ser diferente porque as crianças que vivem nelas estão aí, dando certo. Não adianta mais bater na tecla de que isso não funciona, porque funciona, sejam casais homoafetivos, pais solteiros, crianças criadas por avós ou em instituições. Estamos no momento de sustentar tudo isso para que a criança sinta que de onde ela vem é um lugar digno. Se a família é a catapulta para o coletivo e se o coletivo não acolhe essa criança, é porque nós estamos errados, sendo preconceituosos. As condições para criar uma criança não passam pelo casal heterossexual. Para gerar um filho precisamos de um homem e de uma mulher nascidos como tais, mas isso não diz nada do gênero (homem, mulher, trans…) ou da orientação sexual (hetero, homo, bi…). Não existe vínculo masculino, feminino, homossexual ou heterossexual. Existe, e tem que existir, afeto, amor, diálogo e respeito.
Vera Iaconelli é psicanalista, mestre e doutora em psicologia pela USP, autora do livro “Mal-estar na maternidade” (Annablume, 2005), diretora do Instituto Gerar de psicologia perinatal e parental e membro do fórum do campo lacaniano.
Um apelo: Assista!
http://ocomecodavida.com.br/

























