Notícias - 13/10/2010
Bruno Ribeiro
Vítimas da Homofobia têm queda de rendimento escolar e baixa auto-estima
“Eu era estudante e sofria preconceito, e ainda hoje como professor também sofro. Eu lembro que a professora me taxou de ‘menino do conjuntinho’ porque eu usava uma roupa que era sempre padrão, com a mesma cor. E isso na 4ª série é algo que eu lembro porque me marcou bastante. Depois teve outros eventos pontuais, que o pessoa me xingava e discriminava a ponto de eu ser forçado a namorar uma menina, pra mostrar que era uma coisa que eu não era”.
A fala acima é do professor, educador e militante do movimento LGBTT (lésbica, gays, homossexuais, transexuais e transgêneros) na Paraíba, Victor Pilato, e revela uma dura realidade das escolas paraibanas: os alunos homossexuais sofrem algum tipo de preconceito por parte da comunidade escolar. Para se ter uma idéia, dados divulgados pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP revelam que dentro das escolas públicas brasileiras, 87% da comunidade (pais, professores, alunos, funcionários) tem algum grau de preconceito contra homossexuais.
“Temos casos de professores e funcionários, como diretores e secretários, que agem de forma homofóbicas nas escolas. Há os alunos e outros funcionários como porteiro, vigia, merendeira que apontam ‘há, aquele ali é gay, aquela é lésbica’ dentro do ambiente da escola, infelizmente”, lembrou Victor que, como militante do movimento LGBTT é um dos coordenadores do Movimento do Espírito Lilás (Mel), na área da educação.
Homofobia afeta o rendimento e a auto-estima dos alunos
A homofobia dentro das escolas se manifesta de diversas formas, seja com piadas preconceituosas e cochichos nos corredores até as exclusões em atividades escolares e em grupo. Os casos extremos são as agressões físicas. E isso afeta os alunos de diversas formas.
“Dependendo do aluno, isso afeta a auto-estima e o rendimento escolar deles, porque a criança ou o adolescente que é vítima desse preconceito se retrai e se fecha. Dentro dele já existe um conflito de identidade, que é agravado quando ele se torna alvo dos colegas”, comentou a psicóloga Amanda de Lourdes Duarte.
Os casos mais extremos fazem com os alunos prefiram interromper os estudos. “Vai depender muito do aluno, mas isso pode criar uma certa raiva ‘daquele mundo’ onde ele é vitima de violência”, explicou Amanda.
Falta discussão em sala de aula
Pesquisa recente realizada em 11 capitais brasileiras pela Ong Reprolatina, com apoio do Ministério da Educação, revelaram que as escolas brasileiras são hostis aos homossexuais. O estudo revelou que o tema da sexualidade continua sendo pouco discutido nas salas de aula. Outro dado preocupante da pesquisa concluiu que os homossexuais são bastante reprimidos no ambiente escolar, uma vez que o comportamento diferenciado “interfere nas normas disciplinares da escola”.
De acordo com a Secretaria de Educação do Estado da Paraíba (SES-PB), não existe um programa especifico para combater a homofobia. O que existem nas escolas do Estado são práticas isoladas que são (e podem ser) propostas pelo Conselho da escola. De acordo com a gerente de acompanhamento de gestão escolar (antiga inspetoria técnica de ensino), Socorro Pinto, quando o problema surge na escola, cabe ao conselho escolar criar práticas pedagógicas a fim de resolver.
“Toda escola possui o conselho escolar. Ele é criado para elaborar propostas pedagógicas e acompanhar os casos nas escolas. Então quando surge um problema como esse, cabe ao conselho da escola se reunir para ver o que pode ser feito a fim de combater”, explicou Socorro. O conselho escolar é formado pelo diretor, vice e um representante dos professores, alunos, funcionário, pai e comunidade local. “A pessoa deve se dirigir a pessoa que é representada e a fim de procurar uma forma de combater”, explicou.
P
ara Victor, uma forma de lidar com o problema da homofobia na sala de aula são com rodas de diálogos e atividades entre os alunos, com a temática do preconceito. “O professores não muda o mundo, mas pode criar práticas pedagógicas a fim de discutir e combater qualquer tipo de preconceito nas escolas e entre os alunos”.