terça-feira, 14 de junho de 2011

Lucena: onde o belo e as carências se confundem

Paulo de Tácio
PRAIA DE BONSUCESSO/LUCENA
Se houvesse apenas uma palavra para definir Lucena eu elegeria “a cidade das carências”, apesar de toda a beleza natural que adorna esta que é uma das mais belas, ricas e prósperas cidades da Paraíba. Pode até parecer paradoxal falar em carência e prosperidade ao mesmo tempo. E o é, sim. A carência é por que precisamos de tantas coisas que fica até difícil escolher qual. A prosperidade é que temos tantas possibilidades de crescer que é razoável entender que somos ricos e não sabemos a riqueza que temos.
Somos ricos no que Deus nos deu: uma beleza paisagística ímpar, um recanto ainda quase virgem, onde se pode desfrutar da natureza primitiva. Um lugar onde a história se mistura com a natureza, que tem um Santuário da Guia, cuja igreja teve início no distante ano de 1591, portanto apenas seis anos após a ocupação portuguesa nas terras paraibanas; e que tem o inusitado do Bonsucesso, com a proeza de uma igreja “plantada”numa árvore.
Lucena tem uma das raízes culturais mais sólidas e preservadas do nosso litoral, com um jeito diferente de ser do seu povo, que guarda traços ainda primitivos e nativistas. Cidade de pescadores que não perdeu seus hábitos, como lançar uma rede ao mar nas pescas-de- arrasto ou nos barcos que deslizam mar à dentro ainda nas primeiras horas da madrugada, e que muitas vezes só voltam dois ou três dias depois.
Lucena dos currais de peixes, onde tanto é bonito apenas observar como mergulhar em suas águas rasas durante as baixas das marés. A chegada do Rio Miriri ao mar é apoteosa, num cenário perfeito, onde a natureza caprichosamente esculpiu a sua imagem. Praia ainda quase virgem, dar a sensação de que estamos num outro lugar.
Mas Lucena paradoxalmente é a cidades das carências, onde a natureza fez a sua parte, mas o homem ainda completou a sua. São muitas as necessidades, e quem melhor sabe é quem delas precisa. Se adoecer na madrugada, pode não dá tempo para chegar o socorro. É urgente a construção de um hospital, funcionando 24 horas, o que poderia salvar muitas vidas.
Precisamos também de uma escola técnica e de ensino em tempo integral para nossas crianças, preparando-as para as oportunidades que o futuro com certeza nos dará. A mão do homem também que se apresentar no planejamento urbanístico, com o embelezamento e fomento ao turismo. Aliás, não consigo vê Lucena sem a sua tríplice vocação natural: o turismo, a pesca e a fruticultura. É a partir delas que podemos deslanchar.
A construção de uma via oeste panorâmica, interligando a sede do município a Costinha e a Guia poderia ser um marco, dando um novo retrato ao lugar. As pontes interligando Lucena a Cabedelo é a salvação de todo o Litoral Norte. Falo em pontes porque é muito fácil, barato e rápido construir duas pequenas pontes unindo Cabedelo à ilha e da ilha outra ponte sobre o Rio da Guia. Isso seria a continuação da PB 008, interligando todo o litoral paraibano.
A
s carências são muitas, mas uma é fundamental: a geração de emprego e renda. E isso somente ocorrerá se soubermos explorar nossas vocações naturais. A Paraíba e o Brasil têm uma dívida enorme com Lucena, que remonta ao longínquo ano de 1985, quando foi proibida a pesca da baleia. Daquela época nos restam os órfãos da pesca, que nunca receberam a prometida compensação. O que temos hoje são as viúvas e os viúvos da pesca da baleia, que continuam desempregados e desamparados, sem que o Poder Público cumpra com sua parte.
Mas Lucena tem jeito, e ainda despertará para o desenvolvimento sustentável, mantendo as suas belezas paisagísticas como as piscinas naturais de Pontinha, a encosta do Miriri, o Santuário da Guia, as belezas de Camaçari, e o suprimento de todas as suas carências. Quem viver verá.

Os órfãos da pesca da baleia esperam compensação

Paulo de Tácio

O Brasil e a Paraíba têm uma dívida enorme com o povo de Lucena, que carece de uma urgente reparação. E é muito simples entender. Até a metade dos anos 80, apesar de naquela época não possuirmos a Balsa, a ligação com a cidade se dava exclusivamente pela velha e curvilínea estrada de chão batido, muito menos havia ainda a expansão imobiliária na área praieira, o município de Lucena era um dos que se mostrava mais promissor em todo o Litoral Norte.
A pesca da baleia era o grande empregador e responsável pela maior parte da receita do município. Lucena não possuía outras fontes de renda que não a pesca e a ainda insipiente fruticultura. O turismo, pior que hoje, sequer era uma aposta. Mesmo assim não havia desemprego. Vivia-se da pesca. Pesca que era abundante de xarel, de camarão, cação, lagosta, lagostim, e tantos outros peixes retirados dos currais, das redes de arrasto ou das pequenas embarcações tainheiras e camarãozeiras. À vela ou movida com pequenos motores a diesel.
Mas era a baleia quem fazia a festa de todos. Dos turistas que iam a Costinha e Cabedelo assistir a chegada dos barcos pesqueiros, mas, sobretudo, das centenas de famílias que tinham naquela atividade o seu sustento. E eram muitas as pessoas que possuíam a carteira assinada na Cia de Pesca do Norte do Brasil. A pesca da baleia em Lucena foi iniciada no distante ano de 1911, e Costinha sempre foi o porto-pesqueiro, o ancoradouro para onde eram levadas as baleias.
Em Costinha, que é um distrito de Lucena, a pesca da baleia mais que fonte de emprego e renda era a garantia de alimentação de baixo custo para a população residente e para todos os paraibanos de baixa renda, em razão do preço baixo de sua saborosa carne. Da baleia tudo se aproveitava, do óleo à carne que se podia comer feito bife ou charque aos ossos que eram triturados e viravam ração animal ou adubo vegetal. Tudo se transformava.
Entre os meses de junho e dezembro eram pescados diariamente entre seis e oito baleias em alto-mar da Costa paraibana, e levadas para o ancoradouro de Lucena. A chegada dos barcos pesqueiros, nos finais de tarde e “boquinhas” da noite transformava-se numa grande festa, sendo, à época, o grande atrativo turístico, atraindo várias lanchas lotadas de curiosos para assistirem a operação beneficiamento, que durava, em média, 18 minutos por animal. Eram baleias Mink, Cachalote e Espadarte.
No ano de 1985, depois de uma campanha insidiosa nacional contra a pesca, que contou, inclusive, com uma música da dupla Roberto e Erasmo Carlos, que embalava os protestos, a pesca foi proibida no litoral brasileiro, sob a alegação de que era aqui o berçário delas. Não convém discutir neste espaço se verdade ou mentira que a parte paraibana da costa sirva mesmo de berçário para as Mink, Cachalotes e Espadartes, embora saibamos que elas continuam presas fáceis dos modernos e sofisticados navios-pesqueiros islandeses, chineses, japoneses e coreanos que desrespeitam o cinturão das 200 milhas nacionais.
Mas, proibição à parte, o que importa mesmo é que até agora nada foi feito para compensar as viúvas e os viúvos da pesca, que continuam órfãos, desempregados, subempregados. Muitos morreram de espera. Todos filhos de tantas promessas feitas pelos vários governantes de plantão. A fome, a miséria, o descaso compõem o resto do enredo dessa história.
D
aí o porquê de que Lucena tem uma enorme dívida a resgatar junto aos Governos Federal e Estadual. É chegada a hora da compensação. Que ela venha por investimentos que devem ser feitos na nossa tríplice vocação natural: a piscicultura, o turismo e a fruticultura, ou por outros caminhos, como o Porto de Águas Profundas, o Complexo Portuário-Pesqueiro Lucena/Cabedelo ou pela Zona de Processamento e Exportação, a Zona Franca Lucena/Cabedelo, que pode ser outra solução.

PAULO DE TÁCIO é jornalista, advogado e empresário de radiodifusão.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"A alfabetização nunca termina"

ENTREVISTA COM TELMA WEISZ


Doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo, Telma Weisz criou o Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa), lançado em 2001 pelo Ministério da Educação. Hoje coordena um programa semelhante, o Letra e Vida, na Secretaria de Estado da Educação de São Paulo. Nesta entrevista, ela destaca que a alfabetização é um processo contínuo e fala da responsabilidade da escola para combater o analfabetismo funcional.

O que é ser alfabetizado?

Telma Weisz Vejo a aquisição do sistema de escrita - popularmente conhecida como alfabetização e que chamamos de alfabetização inicial - como parte de um processo. Mesmo os adultos nunca dominam todos os tipos de texto e estão sempre se alfabetizando. Ser alfabetizado é mais do que fazer junções de letras, como B com A, BA.

Qual a diferença entre alfabetização e letramento?

Telma Weisz No passado, era considerado alfabetizado quem sabia fazer barulho com a boca diante de palavras escritas. Só então estudava-se Língua Portuguesa e gramática. Para quem acredita no letramento, a criança primeiro aprende o sistema da escrita e só depois faz uso social da língua. Assim como antes, isso dissocia a aquisição do sistema das práticas sociais de leitura e escrita. Para evitar essa divisão, passamos a usar o termo cultura escrita.

Qual a importância do professor como leitor-modelo?

Telma Weisz A leitura é uma prática e para ensinar você precisa aprender com quem faz. Porém, este é um nó: como formar leitores se você não lê bem? E como ler bem se você saiu de uma escola que não forma leitores? A solução é de longo prazo e requer programas de educação continuada que tenham um trabalho sistemático nessa área. Nas reuniões do Profa, eram dados três textos ao formador. Ele escolhia um e lia para os professores, que recebiam os três. Ao fim do ano, eles haviam lido 150 textos de vários gêneros.

Como os pais podem colaborar na alfabetização?

Telma Weisz Lendo todos os dias para as crianças. Quem passa a primeira infância ouvindo leituras interessantes se apropria da linguagem escrita. Assim, na hora em que lê e escreve de forma autônoma, já sabe o que e como produzir. Isso também possibilita à criança entender os textos que lê.

Por que saem das escolas tantos analfabetos funcionais?

Telma Weisz Porque a escola só reconhece como alfabetização a aquisição do sistema. Em vez de investir na competência leitora, concentra-se no ensino de gramática. Por isso há analfabetos funcionais com muitos anos de escolaridade. Formar leitores e gente capaz de escrever é uma tarefa de coordenadores, gestores e professores de todas as séries e disciplinas. Eu diria que leitura e escrita são o conteúdo central da escola e têm a função de incorporar a criança à cultura do grupo em que ela vive. Isso significa dar ao filho do analfabeto oportunidades iguais às do filho do professor universitário.

Como reverter esse quadro?

Telma Weisz Lendo, discutindo, trocando idéias, vendo o que cada um entendeu e pesquisando em fontes diversas. É preciso tornar o texto familiar, conhecer suas características e trazer para a sala práticas de leitura do mundo real. Se a função da escola é dar instrumentos para o indivíduo exercer sua cidadania, é preciso ensinar a ler jornal, literatura, textos científicos, de história, geografia, biologia. Consegue ler bem quem teve algum tipo de oportunidade fora da escola. Os que dependem só dela são os analfabetos funcionais. E a escola faz isso porque não compreende claramente a sua função.