sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Pensamento Elevado

]Que a nossa luz cegue a maldade alheia. Que a nossa energia boa esteja sempre vibrando alto. Que os nossos pensamentos sejam sempre elevados. Que a proteção esteja sempre conosco. Que a bondade seja sempre nosso guia. Que o amor seja sempre a regra. Que a paz interior permaneça mesmo em meio ao caos.

terça-feira, 2 de julho de 2019

“O neoliberalismo aplica a necropolítica – deixa morrer pessoas que não são rentáveis.”



“O neoliberalismo aplica a necropolítica – deixa morrer pessoas que não são rentáveis.”

Clara Valverde, ativista política e social, além de escritora, apresenta seu novo livro De la necropolítica neoliberal a la empatía radical (Icaria / Más madera): “O poder neoliberal faz com que os incluídos não confiem nos Excluídos, que os vejam como estranhos, diferentes, desagradáveis e não se solidarizem com eles.”

Valverde apresenta seu novo livro com a alusão a um texto pichado em um muro: “Com a ditadura nos matavam. Agora nos deixam morrer.” Em De la necropolítica neoliberal a la empatía radical (‘Icaria/Más madera’), essa ativista e escritora sustenta que o sistema neoliberal é incompatível com a luta contra a desigualdade. Para ela, esse sistema divide a sociedade em excluídos e incluídos: desconsidera os primeiros e atemoriza os segundos para perpetuar e aumentar o poder e a riqueza dos privilegiados.

O que devemos entender por “necropolítica neoliberal”?
Necro é o termo grego para ‘morte’. As políticas neoliberais são políticas de morte. Não tanto porque os governos nos matam com sua polícia, mas porque deixam morrer pessoas com suas políticas de austeridade e exclusão. Deixa morrer os dependentes, os sem-teto, os doentes crônicos, as pessoas nas listas de espera, os refugiados que se afogam no mar, os emigrantes nos CIE[i]

Os corpos que não são rentáveis para o capitalismo neoliberal, que não produzem nem consomem, são deixados para morrer.
Como você consegue convencer os cidadãos de que essa “necropolítica neoliberal” os beneficia? Por que não ocorre uma rebelião massiva contra ela?
Os que ainda não estão excluídos, os que ainda acreditam no mito de que nesta sociedade somos livres aceitam e endossam o que dizem os poderosos e sua imprensa: que os excluídos não são como eles, que são um povo imundo e sujo, diferente, com má sorte e maus hábitos. O mito interiorizado é que os excluídos procuraram a situação que sofrem.

Não ocorre uma rebelião massiva contra as necropolíticas dos governos, contra a exclusão, porque as pessoas que ainda não estão excluídas não se identificam com os excluídos. Pensam “este não sou eu”, “isso não vai acontecer comigo”. Não se deixam identificar com aquele que sofre, não tem empatia radical. Na realidade, as necropolíticas afetam a todos. Então, essa pessoa incluída na doença será possivelmente excluída sem renda e sem ajuda.
Nesse desenho social, há cidadãos excluídos e cidadãos incluídos. Ninguém defende os excluídos?

Muito poucas pessoas defendem os excluídos. Quantas pessoas se organizam para apoiar os sem-teto? Quantas ajudam os idosos ou doentes crônicos e suas associações? Na PAH [Plataforma de Afetados pela Hipoteca – “associação de pessoas que perderam sua casas para os bancos e foram despejadas”] há apoio mútuo e empatia radical, mas quase todos os que estão ativos na PAH também são afetados pelos despejos.

Os incluídos acreditam que estão a salvo de expulsão do sistema, mas são advertidos a todo o momento de que podem ser excluídos. O temor da exclusão estimula a falta de solidariedade em nossa sociedade?

Os que agora têm sorte de não estar doentes, despejados, desempregados, deveriam pensar que a maioria, a menos que se tenha muito capital econômico, poderia chegar a ser excluída. Vamos dizer que você era motorista de ônibus. Se você adoece, ainda que tivesse contribuído durante anos, é muito possível que o Instituto Catalán de Evaluaciones Médicas (ICAM) te dê alta, mesmo que esteja muito doente para trabalhar. Então, o que você fará? Sem poder trabalhar, sem renda e com as despesas que uma doença implica e que a Seguridade Social não cobre…

O poder neoliberal faz com que os incluídos não confiem nos Excluídos, que os vejam como estranhos, diferentes, desagradáveis e não se solidarizem com eles.

O neoliberalismo impõe sua necropolítica mediante a violência. Mas essa violência nem sempre é explícita. Você diz que o mais eficaz para os interesses do neoliberalismo é a ‘violência discreta’. A que você se refere?
Por exemplo, cortes, mercantilização e privatização da saúde pública são uma violência discreta. Não matam a tiros os doentes das listas de espera. Mas, quantos morrem nessas listas intermináveis? Essas listas são longas porque os administradores da saúde pública e os políticos as organizam para que a saúde privada “sugue” dela. Isso tem, como uma de suas consequências, o sofrimento e a morte lenta dos doentes que esperam.

Você afirma que o sentido das palavras tem mudado e que, para combater a necropolítica neoliberal, temos que voltar a chamar as coisas pelo seu nome. Quais armadilhas da linguagem você destacaria?

Temos que chamar as coisas pelo nome que elas têm. Políticos neoliberais de direita, aqueles que são “centristas”, todos nos maltratam. Não há outra palavra. É mau trato. As condições laborais são maus tratos. Os cortes são maus tratos. As leis de mordaça são maus tratos.

Existem muitas armadilhas linguísticas. O fato de as pessoas tomarem como suas as frases-armadilhas dos poderosos é preocupante. Frases como “É o que temos”, “Não posso reclamar”, “Não vai piorar”, “Nada acontece” etc. ou o ‘pensamento positivo’ que faz as pessoas se sentirem culpadas por estarem zangadas com os políticos e com a situação atual.

A tolerância é outra grande armadilha. A tolerância é muito violenta. Você tenta dizer que é bom, que sim, temos que tolerar o que é diferente. ‘Tolerar’ quer dizer ‘aguentar’ e é uma posição de poder sobre o outro. “Eu te aguento mesmo que você seja pobre, trans, negro, autista etc.” Não, as diferenças não são para ser toleradas. As diferenças têm que ser olhadas, entender o motivo das desigualdades entre grupos diferentes e mudar a situação. É necessário nomear as desigualdades e lutar contra elas ao mesmo tempo em que celebramos a diversidade.

É chocante quando se fala sobre a contratação de deficientes ou o papel das ONG como um instrumento manipulado pelo neoliberalismo em interesse próprio.

Aqui não se fala disso, mas em muitos países, sim. Há numerosos autores que falam de “ONGismo” e de “Inspiração Pornô”.

O ONGismo é a utilização da comunidade para fazer o trabalho que o governo deveria fazer com nosso dinheiro. O ONGismo é um tema complexo porque as pessoas boas que se envolvem com uma ONG o fazem com boas intenções. Mas então são eles os que têm que cortar e fazer com que seus funcionários aceitem salários miseráveis para realizar tarefas que correspondem ao Estado de Bem-estar Social.

Dê alguns exemplos dessa manipulação na publicidade.

Há alguns anos a Fundação La Caixa utilizava pessoas com síndrome de Down não muito severa como exemplos de como deveriam ser os trabalhadores. Agora há um anúncio da empresa de máquinas de lavar roupas, Balay, em que um mudo diz: “Olhe! Se um trabalhador com deficiência é o melhor trabalhador, sorria e não reclame: você, que não é deficiente, deveria se calar, trabalhar e não protestar”. Isso é um exemplo de “Inspiração Pornô”, uma espécie de pornografia com os deficientes.
Mas a realidade é que a maioria dos deficientes não tem renda e sofre muito. E se consegue um trabalho, sua empresa não tem que pagar sua Previdência Social. É uma economia para o dono.
A necropolítica é especialmente evidente na Espanha? Você destaca que nesse país tem sido enterrada a memória histórica do que supunham ser a guerra e o franquismo, que apenas no Camboja há mais valas comuns por abrir.

Na realidade, a necropolítica pode ser vista no mundo todo. Veja a situação de violência no México.
Mas sim, uma sociedade como a nossa, que se destaca mundialmente pela quantidade de pessoas desaparecidas e sem enterrar há 80 anos, não é uma sociedade que possa funcionar de forma humana. Temos mais de 100.000 avós e avôs sem enterrar ainda. Quantas pessoas da nossa geração são afetadas por isso diretamente? E indiretamente?

Caminhamos por campos e vales, e sob nossos pés estão milhares e milhares de pessoas que o governo, nenhum governo, crê que mereçam ser encontradas e entregues a suas famílias. Isso produz uma sociedade muito doente.

O sistema de saúde serve como exemplo perfeito da forma de atuar dessa necropolítica neoliberal. É onde se torna mais evidente seu modo de agir?

É uma das áreas onde mais vemos o sofrimento causado pela necropolítica, porque no sistema de saúde trabalhamos com a vida e o corpo das pessoas, com o sofrimento inevitável que é parte do ser humano.

Dou um pequeno exemplo: os profissionais de enfermagem de hospitais nos quais se implantou o método “Lean”, inventado para as cadeias de montagem de carros da Toyota. Eles dão mais importância a estar “no horário” (pontuais com a velocidade que suas tarefas lhes impõem, velocidade nada humana nem para o profissional nem, sobretudo, para o paciente) do que à qualidade do trabalho e ao bem-estar dos pacientes. Dizem estar contentes se estão “no horário”, como se fossem condutores da Renfe[ii]!

O método Lean foi implementado sem protestos entre os profissionais de saúde. Da mesma forma que muitos profissionais não questionam o Lean, tampouco questionam o autoritarismo e o paternalismo que eles mesmos utilizam com os doentes.

O que é grave é que esses profissionais de saúde são também vítimas de autoritarismo e paternalismo das administrações de saúde. Eles são maltratados e exige-se que também maltratem. Finalmente, sem se dar conta, acabam fazendo o que muitos autores chamam “governar por terceiros”, ou seja, fazendo o trabalho sujo dos neoliberais.

E essa ação é simbolizada pelas doentes com Síndrome de Sensibilização Central (SSC). Por quê?

Porque as doentes (a maioria é composta por mulheres, adolescentes e crianças) de SSC são pelo menos 3,5% da população – ainda que os pesquisadores internacionais digam que o percentual é muito mais alto – e a cada ano perdem parte dos poucos direitos que tinham. Com Boi Ruiz[iii], os enfermos de SSC na Catalunha deixaram de ter direito de acessar seus médicos. E se o novo conselheiro seguir o acordo Juntos Pelo Sim-CUP, seguirão sem poder ver seu médico e os que adoecem agora não poderão ser diagnosticados.

Oitenta por cento desses doentes vivem fechados em suas casas, em suas camas, sem nenhuma ajuda de saúde nem social. E estão doentes demais para protestar, participar de movimentos sociais etc. A maioria adoece entre 10 e 30 anos de idade. Não tem plano de saúde. Uma longa vida de pobreza e sofrimento os aguarda na cama. E aqueles que conseguiram trabalhar alguns anos e pagar algum plano de saúde, o ICAM faz todo o possível para que não tenham nenhuma ajuda financeira. Até os que conseguiram uma pensão através dos tribunais, o ICAM lhes tira a pensão.
O antídoto contra essa necropolítica está no desejo de compartilhar. “Para sobreviver e viver é preciso compartilhar”, você diz. Isso vai funcionar?

As iniciativas, ideias e grupos envolvidos em comum são o antídoto contra a necropolítica. O que o poder absoluto quer dividir, nós temos que juntar. Temos que juntar pessoas doentes, saudáveis, trans e todos os gêneros, várias raças, anciãos, crianças… Mas para fazê-lo temos que desenvolver uma empatia radical e começar a partir dos espaços excluídos. Não funciona que os “incluídos” convidem os excluídos para seus movimentos. Tem que ser o contrário. Os que ainda se acham incluídos precisam ir a esses espaços intersticiais onde a exclusão vive e começar a partir daí.

Nesse sentido, quero agradecer ao Catalunya Plural por entender que para poder ter esta entrevista comigo, que vivo na cama 90% do tempo com encefalomielite miálgica [síndrome da fadiga crônica], tivemos que fazer do meu jeito. Alguns precisam de uma rampa para suas cadeiras de rodas. Outros precisam de Skype e e-mail.

Entrevista de Clara Valverde publicada inicialmente em 11 de julho de 2017, em El Diário. Disponível em: <http://www.eldiario.es/catalunyaplural/neoliberalismo-aplica-necropolitica-personas-rentables_0_479803014.html>.
Tradução: Luiz Morando

https://resistaorp.blog/2019/04/23/o-neoliberalismo-aplica-a-necropolitica-deixa-morrer-pessoas-que-nao-sao-rentaveis/

domingo, 21 de abril de 2019

O Marxismo não é mais útil (Por Frei Betto)


O papa Bento XVI tem razão: o marxismo não é mais útil. Sim, o marxismo conforme muitos na Igreja Católica o entendem: uma ideologia ateísta, que justificou os crimes de Stalin e as barbaridades da revolução cultural chinesa.

Aceitar que o marxismo conforme a ótica de Ratzinger é o mesmo marxismo conforme a ótica de Marx seria como identificar catolicismo com Inquisição. Poder-se-ia dizer hoje: o catolicismo não é mais útil. Porque já não se justifica enviar mulheres tidas como bruxas à fogueira nem torturar suspeitos de heresia. Ora, felizmente o catolicismo não pode ser identificado com a Inquisição, nem com a pedofilia de padres e bispos.

Do mesmo modo, o marxismo não se confunde com os marxistas que o utilizaram para disseminar o medo, o terror, e sufocar a liberdade religiosa. Há que voltar a Marx para saber o que é marxismo; assim como há que retornar aos Evangelhos e a Jesus para saber o que é cristianismo, e a Francisco de Assis para saber o que é catolicismo.

Ao longo da história,
• em nome das mais belas palavras foram cometidos os mais horrendos crimes.
• Em nome da democracia, os EUA se apoderaram de Porto Rico e da base cubana de Guantánamo.
• Em nome do progresso, países da Europa Ocidental colonizaram povos africanos e deixaram ali um rastro de miséria.
• Em nome da liberdade, a rainha Vitória, do Reino Unido, promoveu na China a devastadora Guerra do Ópio.
• Em nome da paz, a Casa Branca cometeu o mais ousado e genocida ato terrorista de toda a história: as bombas atômicas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki.
• Em nome da liberdade, os EUA implantaram, em quase toda a América Latina, ditaduras sanguinárias ao longo de três décadas (1960-1980).

O marxismo é um método de análise da realidade. E, mais do que nunca, útil para se compreender a atual crise do capitalismo. O capitalismo, sim, já não é útil, pois

• promoveu a mais acentuada desigualdade social entre a população do mundo;
• apoderou-se de riquezas naturais de outros povos;
• desenvolveu sua face imperialista e monopolista;
• centrou o equilíbrio do mundo em arsenais nucleares; e
• disseminou a ideologia neoliberal, que reduz o ser humano a mero consumista submisso aos encantos da mercadoria.

Hoje, o capitalismo é hegemônico no mundo. E de 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta, 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza, e 1,2 bilhão padecem fome crônica. O capitalismo fracassou para 2/3 da humanidade que não têm acesso a uma vida digna.

• Onde o cristianismo e o marxismo falam em solidariedade, o capitalismo introduziu a competição;
• onde o cristianismo e o marxismo falam em cooperação, o capitalismo introduziu a concorrência;
• onde o cristianismo e o marxismo falam em respeito à soberania dos povos, o capitalismo introduziu a globocolonização.

A religião não é um método de análise da realidade. O marxismo não é uma religião. A luz que a fé projeta sobre a realidade é, queira ou não o Vaticano, sempre mediatizada por uma ideologia. A ideologia neoliberal, que identifica capitalismo e democracia, hoje impera na consciência de muitos cristãos e os impede de perceber que o capitalismo é intrinsecamente perverso. A Igreja Católica, muitas vezes, é conivente com o capitalismo porque este a cobre de privilégios e lhe franqueia uma liberdade que é negada, pela pobreza, a milhões de seres humanos.

Ora, já está provado que o capitalismo não assegura um futuro digno para a humanidade. Bento XVI o admitiu ao afirmar que devemos buscar novos modelos. O marxismo, ao analisar as contradições e insuficiências do capitalismo, nos abre uma porta de esperança a uma sociedade que os católicos, na celebração eucarística, caracterizam como o mundo em que todos haverão de “partilhar os bens da Terra e os frutos do trabalho humano”. A isso Marx chamou de socialismo.

O arcebispo católico de Munique, Reinhard Marx lançou, em 2011, um livro intitulado O Capital – um legado a favor da humanidade. A capa contém as mesmas cores e fontes gráficas da primeira edição de O Capital, de Karl Marx, publicada em Hamburgo, em 1867. "Marx não está morto e é preciso levá-lo a sério", disse o prelado por ocasião do lançamento da obra. “Há que se confrontar com a obra de Karl Marx, que nos ajuda a entender as teorias da acumulação capitalista e o mercantilismo. Isso não significa deixar-se atrair pelas aberrações e atrocidades cometidas em seu nome no século 20″.

O autor do novo O Capital, nomeado cardeal por Bento XVI em novembro de 2010, qualifica de “sociais-éticos” os princípios defendidos em seu livro, critica o capitalismo neoliberal, qualifica a especulação de “selvagem” e “pecado”, e advoga que a economia precisa ser redesenhada segundo normas éticas de uma nova ordem econômica e política.” As regras do jogo devem ter qualidade ética.

Nesse sentido, a doutrina social da Igreja é crítica frente ao capitalismo”, afirma o arcebispo.
O livro se inicia com uma carta de Reinhard Marx a Karl Marx, a quem chama de “querido homônimo”, falecido em 1883. Roga-lhe reconhecer agora seu equívoco quanto à inexistência de Deus. O que sugere, nas entrelinhas, que o autor do Manifesto Comunista se encontra entre os que, do outro lado da vida, desfrutam da visão beatífica de Deus.

*Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais

sábado, 5 de maio de 2018

Comovente carta da escritora Luciana Hidalgo ao Ex Presidente Lula





Luciana Hidalgo é uma premiada escritora brasileira, reconhecida com prêmios nacionais com o Jabuti e internacionais. Esta carta é comovedora e põe em relevo a revolução pacífica feita por Lula com os dezenas de micro projetos sociais que transformaram a vida de milhões de brasileiros pobres, fato reconhecido no mudo inteiro. Lamentavelmente não temos dado valor a este evento singularíssimo no mundo, especialmente não por aqueles que nunca deram atenção aos milhões de marginalizados, tidos como peso morto do desenvolvimento desigual e injusto. Este testemunho é esclarecedor e poderá ajudar a analisar a nossa realidade histórico-social com outros olhos, mais benignos do que aqueles marcados por preconceitos e distorções. (Comentário feito por Leonardo Boff em seu Bolg https://leonardoboff.wordpress.com/)

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Eis a carta de Luciana Hidalgo:
Querido presidente,

O que o senhor fez no Brasil foi uma revolução. Não uma Revolução Francesa, que guilhotinou cabeças da realeza para exigir na marra liberdade, igualdade, fraternidade. Não, o senhor não cortou cabeças, nem expulsou ricos de suas propriedades privadas como a Revolução Russa, tampouco roubou a poupança das classes abastadas (como aquele presidente eleito no Brasil em 1989 roubou). O senhor manteve as elites ricas e contentes, mas foi mexendo dia após dia nos mecanismos de poder que excluíam perversamente os pobres da nossa sociedade e negavam o que todo país decente deveria garantir: sua cidadania, isto é, sua dignidade.

Por isso, de início, querido presidente, seus microgestos, sutis, pouco saíam nos jornais, mas abalavam gradativamente as estruturas viciosas do poder. Sou leitora de Michel Foucault e atesto que o senhor fez genial e intuitivamente, na prática, num país periférico e violento, muito do que esse célebre filósofo francês teorizou sobre micropoder. O senhor modificou, programa após programa, a microfísica do poder no Brasil.

Explico como: logo de início o senhor abriu crédito para ajudar pobres a comprar eletrodomésticos básicos; subsidiou a compra de tintas e materiais para que construíssem suas casas; criou o Banco Popular, ligado ao Banco do Brasil, permitindo que pobres tivessem conta em banco; levou iluminação elétrica aos recantos rurais mais atrasados pela escuridão (Luz para Todos); criou o Bolsa Família, tirando 36 milhões de brasileiros da miséria e obrigando seus filhos a voltar à escola; levou água para milhões de brasileiros que sofriam com a seca no interior semiárido (programa Cisternas, premiado pela ONU); inventou Minha Casa Minha Vida, distribuindo moradias Brasil afora; criou Farmácias Populares que vendiam medicamentos com descontos para a população de baixa renda; implementou cotas raciais e sociais em universidades, contribuindo para que jovens negros e/ou vindos de escolas públicas pudessem estudar e no futuro talvez escapar de serem assassinados nas ruas do Brasil; implantou o Prouni (Universidade Para Todos), oferecendo bolsas para alunos de baixa renda estudarem em faculdades particulares; aumentou o salário-mínimo acima da inflação; etc.
Não me beneficiei pessoalmente de nenhum dos seus programas sociais, querido presidente. Sou brasileira privilegiada, nascida numa classe média da zona sul carioca. Fui jornalista nas maiores redações do Rio (Jornal do Brasil, O Globo, O Dia), depois virei escritora (premiada com dois Jabuti), fiz um doutorado e dois pós-doutorados em Literatura, na Uerj e na Sorbonne. E é justamente por isso, por tudo o que li, vi e aprendi, sobretudo na França onde morei durante anos, que posso dizer: países europeus só se desenvolveram porque aplicaram e aplicam projetos como os seus. Na França, por exemplo, o salário-mínimo é de uns R$ 4 mil (graças a décadas de greves e manifestações de trabalhadores “vândalos” por melhores salários); o seguro-desemprego dura de dois a três anos para que o desempregado não caia na miséria; há “locações sociais” que garantem moradia aos menos privilegiados; todos os remédios receitados nos hospitais públicos são dados ou subsidiados pelo governo etc.

O problema, querido presidente, é que quando uma parte da elite brasileira visita Paris, só vê a grande beleza. Finge não ver que aquela beleza só se sustenta graças à aplicação justa de impostos. Sim, as classes mais abastadas de lá têm consciência política, sabem que o equilíbrio social depende delas. No Brasil não. Tem brasileiro que gasta milhares de euros em turismo na França e na volta reclama dos R$ 300 dados mensalmente aos beneficiados do Bolsa Família.

Sim, querido presidente, é difícil entender a mentalidade desses que frequentaram os melhores colégios particulares do Brasil. Até entendo, já que eu mesma cursei um dos melhores colégios particulares do Rio e não aprendi grande coisa. Lá não havia disciplinas como Literatura ou Filosofia, por exemplo, que nos ajudariam a ter um pensamento mais crítico. Que pena.

Só aprendi o que era o mundo quando comecei a encarar a miséria do meu país de frente em vez de virar a cara ao passar por ela na rua. Ainda na adolescência participei de um grupo que dava comida para os sem-teto no Rio e pude ouvir suas comoventes histórias de vida. Depois virei jornalista e passei a ouvir mais pessoas, das mais variadas origens, das favelas, dos interiores, e suas justas reivindicações.

Portanto, saiba, querido presidente, que não só o povo beneficiado pelos seus programas sociais está ao seu lado. Somos muitos escritores, artistas, professores de escolas e universidades, pessoas premiadas, com títulos, das mais diversas profissões. Justamente por termos lido tanto (livros, não apenas jornais e revistas), viajado, justamente porque conhecemos o Brasil profundo, entendemos a grandeza do que o senhor fez. Nós também somos esse povo.
Aliás, há inúmeros políticos, historiadores, intelectuais estrangeiros nas maiores universidades da Europa que também o admiram. E se escandalizam, por exemplo, quando ouvem comentaristas brasileiros dizerem de forma tão elitista que o eleitor de Lula é “povão”, “nordestino”, “ignorante”, “petista”, “lulista”, “petralha”, “fanático”. Intelectuais estrangeiros se chocam com a criminalização de pobres, negros, índios e da própria esquerda no Brasil. E também se chocam quando o xingam de “populista”, como se o senhor usasse o povo. Ora, ora, mas o senhor é o povo.

No mais, querido presidente, não entrarei no mérito do seu julgamento. Primeiro porque não acredito em condenação sem provas. Segundo porque desde o golpe de 2016, que tirou do poder uma presidenta eleita pelo povo, desde o dia em que ficou provado (e gravado!) o conluio entre os Poderes “com o Supremo, com tudo”, não acredito mais nas nossas instituições.

Claro que a Lava Jato é importantíssima para o país, mas o partidarismo seletivo e o gosto pelo espetáculo a diminuem. Talvez por isso grandes juristas estrangeiros têm apontado falhas absurdas no processo que o condenou, querido presidente. Como disse o advogado inglês Geoffrey Robertson em entrevista recente à BBC de Londres, “o Brasil tem um sistema de acusação totalmente ultrapassado, em que o juiz que investiga, supervisiona a investigação, é o mesmo que julga o caso – e sem um júri!”. Outro jurista disse o mesmo num artigo no jornal The New York Times. Enfim, como acreditar numa justiça personalista, que num piscar de olhos pode beirar o justiçamento?

Nessas horas me lembro do que dizia Foucault: “Prender alguém, mantê-lo na prisão, privá-lo de alimentação, de aquecimento, impedi-lo de sair, de fazer amor, etc., é a manifestação de poder mais delirante que se possa imaginar. (…) A prisão é o único lugar onde o poder pode se manifestar em estado puro, em suas dimensões mais excessivas, e se justificar como poder moral.”
Sabe, querido presidente, quando a perseguição ao senhor começou na mídia, me lembrei do Betinho. Quase ninguém mais se lembra dele, o sociólogo Herbert de Souza, que criou associações de combate à fome e de pesquisa sobre a Aids nos anos 1990, quando os programas sociais do Estado eram insignificantes. Pois bem, esse cara, que devia ser coroado por seu esforço descomunal pelos pobres, um dia acordou sendo linchado da forma mais violenta pela imprensa por ter recebido doações de bicheiros. Os “puros” do país o atacaram de todos os lados, logo ele, “o irmão do Henfil” ex-exilado, hemofílico e soropositivo, tão magrinho, fiapo de gente, um dos poucos a combater a fome no Brasil. Mas não, para os “puros”, nada do que ele fazia pelos pobres compensava esse grande “erro”. Como se no Brasil houvesse dinheiro realmente “limpo”.
É, querido presidente, são assim os “puros”, os que não entendem a complexidade das lutas, os que fecham os olhos para as falcatruas dos ricos mas lincham o menino de rua da esquina, os que defendem uma ética que eles próprios não têm no dia a dia, enrolados em seus conchavos, compadrios, sonegações de impostos, corrupções de todo tipo. Das minhas andanças pelos bastidores do poder, posso dizer: os “puros”, mal acordam, já loteiam a alma.

É claro, querido presidente, que o senhor, além dos acertos, também cometeu erros. Quem não erra? Confesso que no início do seu governo estranhei, por exemplo, a sua aliança com a escória da política brasileira (PMDB etc.). Mas logo entendi que sem isso nenhum, nenhum, nenhum dos seus programas que revolucionaram o Brasil seria aprovado. Não sem esse toma-lá-dá-cá, não sem o cafezinho com o inimigo. Sonho sim com uma política pura, mas como, quando, se nunca, nunca, nunca foi assim nesse país?

Não vou, portanto, enumerar seus erros porque seus acertos os superam imensamente. Só a partir do seu governo entendi que a política pode muito mais do que o assistencialismo. Enquanto meus amigos e eu dávamos 50 quentinhas numa noite aos sem-teto do Rio, o senhor, com nossos votos, tirava milhões da miséria. Milhões de brasileiros.

O senhor acreditou antes de tudo na política, não em revoluções sangrentas radicais, para mudar o Brasil. E mudou. Não sou “lulista” nem “petista” (nunca me associei a partido algum), muito menos “petralha”. Mas, graças ao senhor, agora eu e milhões de brasileiros passamos a acreditar na política. E só por isso vale lutar.
Fico por aqui, no aguardo das eleições de outubro de 2018, quando um presidente de esquerda retomará o rumo desse Brasil desgovernado pelo conluio entre Poderes e onde, devido à corrupção, à leviandade e ao partidarismo das instituições, ideias fascistas se proliferam como bactérias.

Um grande abraço da
Luciana Hidalgo

sexta-feira, 27 de abril de 2018

CONSTRUINDO A AUTO-ESTIMA DA CRIANÇA NEGRA




CONSTRUINDO A AUTO-ESTIMA DA CRIANÇA NEGRA


Análise do texto de Inaldete Pinheiro de Andrade pela professora Leda Beatriz Laurensi do Colégio Estadual Cristo Rei


O texto trata e retrata as contações de histórias na infância e da desigualdade hoje, que há entre Tv e Livros. O incentivo à leitura e o hábito da mesma.
Coloca o livro infantil como recurso de confronto com a televisão, fundamentando o conhecimento das relações raciais na produção da literatura infanto-juvenil brasileira. Apreender o lugar que ocupava a personagem negra incluida nas histórias. Também, relacionar os livros recomendáveis e os que apresentam os estereótipos disseminados na sociedade.
A partir daí, os livros que reforçavam a imagem do povo negro passou a fazer parte da Oficina de Leitura.
A metodologia escolhida foi a de escolher a obra de acordo com a faixa etária e nivel de leitura do grupo. Buscou-se a análise, a expressão da turma de forma oral e através dos desenhos. Após os trabalhos eram expostos e o grupo fazia as observações necessárias provocando a auto-estima da criançada.
O trabalho pautou-se no resgate da memória do povo negro, na honra de pertencer a este movimento, buscando o prazer na leitura e a construção da auto-estima.
“Resgate da memória, resgate da identidade do povo negro”.

CONSTRUINDO A AUTO-ESTIMA DA CRIANÇA NEGRA
Inaldete Pinheiro de Andrade
Educadora do Centro Solano Trindade.
Mestre em Serviço Social.
Introdução

Na véspera de iniciar a produção deste texto, acordei após um sonho que,
acordada, eu vivo sonhando: eu montava uma biblioteca em comunidades
pobres, abria as suas portas, muitas crianças vinham visitá-la e eu lhes
apresentava a seção de literatura infanto-juvenil. Elas ficavam fascinadas
e deliciavam-se com cada livro às mãos. Algumas, entre elas, iniciavam a
alfabetização lendo aqueles livros. Acordei com uma sensação de plenitude
e, mantendo os olhos fechados, alimentava o sonho e convocava mais gente
para viajar nesta possibilidade.

O passado
Eu sou da geração da história de Trancoso: as mulheres mais velhas
contando as histórias e a criançada em volta delas, corações palpitando
para ouvir o “Era uma vez...”; era mais uma história iniciada. Lembro da
Moura Torta, a velha invejosa; a Gata Borralheira e a madrasta (a fama que
ficou para as madrastas não é das melhores); a menina que foi enterrada
viva e os seus cabelos transformaram-se em capim que cresceu no quintal,
denunciando a maldade do pai, o agressor. Eram muitas histórias e noutras
noites pedíamos bis, não nos cansávamos, nem as mulheres contadoras:
mamãe, Baía, a velha parteira e outras vizinhas que gozavam de lugar
cativo nas noites em volta da mesa no terreiro, extensão da casa. Depois, o
tempo dos livros; agora, já vinham como presente e a leitura era da minha
responsabilidade. O fascínio de ouvir as histórias não fora perdido com as
demais leituras, que foram incorporadas às atividades do meu cotidiano.

O presente
Hoje, já não há a roda em volta da mesa e o terreiro como extensão
casa; só os terreiros religiosos, que continuam agregando a família negra,
multiplicando-se em várias famílias, pais e mães-de-santo, filhos e filhas em
lugares diversos.
O “em volta da mesa” foi lentamente substituído pela televisão e outras
histórias foram introduzidas no cotidiano das crianças, com o plágio de
fadas no ar ao vivo por três a quatro horas consecutivas, diariamente,
com músicas, desenhos animados e brincadeiras distantes do ambiente da
maioria das crianças brasileiras- Uma amostra perversa para a construção de
referência deste segmento.
O livro infantil passou a ser um recurso de confronto com a televisão,
competição desigual dentro de uma arena onde poucas pessoas sabem e
gostam de ler. Algumas escolas particulares passaram a introduzir a literatura
infantil na disciplina de Português, como leitura obrigatória de um livro por
unidade, sendo que nas escolas públicas, na minha experiência, a existência
desses livros nas prateleiras da biblioteca nunca fora indicada ao menos por
unidade. Para quem tem estímulo da leitura a obrigação é transformada em
prazer e o hábito pode tornar-se uma prática efetiva (conheço uma professora
que está alfabetizando a turma com a leitura de histórias infantis, numa
escola pública de Pernambuco. Quando, por alguma razão, a professora não
encaminha a turma para a biblioteca, há quem reclame).
O prazer da leitura acompanhou-me da infância ao presente e com
ela a literatura infanto-juvenil. Diante do que falei acima, a militância
no Movimento Negro direcionou-me a utilizá-la como instrumento de
identificação das relações raciais no Brasil. Defino: literatura infanto-juvenil,
a literatura feita por pessoas adultas para crianças e jovens. É uma arte que
povoa a imaginação, e por isso, tem o seu espaço na formação da mente
plástica do ser que a ela tem acesso.
Para fundamentar o conhecimento das relações raciais na produção
da literatura infanto-juvenil brasileira, realizei uma pesquisa dos livros
dessa área que chegavam às livrarias do Recife entre os anos de 82 a 84.
Deveria apreender o lugar que ocupava a personagem negra incluída
naquelas histórias. A seleção consistia no livro cujo título, conteúdo e/ou
ilustração, fazia referência a este sujeito. Com este propósito adquiri 80
volumes, uma amostra que incluiu autores e autoras com mais de uma
publicação, o que, aliás, colaborou para avaliar com mais segurança a sua
participação neste recorte. Na análise, fui inclinada a fazer diferenças entre
os livros recomendáveis e os que acrescentam os estereótipos disseminados
na sociedade, com conteúdo explicitamente racista.

Oficina de literatura infanto-juvenil
Os livros que reforçavam a imagem do povo negro passaram a fazer parte
da Oficina de Leitura, onde desenvolvi, em 1987, uma metodologia de resgate
de identidade racial feita principalmente para crianças e/ou jovens nas áreas
periféricas do Recife, nas escolas ou locais comunitários, após contatos com
suas lideranças ou por solicitação das mesmas. Não é preciso lembrar que
a maioria desta população é afro-descendente. A exceção foi quando lancei
dois textos meus, realizando as Oficinas em escolas particulares, onde a
quase totalidade da turma era de origem branca, com uma ou três crianças
de origem negra nas salas de aula. A metodologia exige escolher a obra de
acordo com a faixa etária e nível de leitura do grupo. Pede para se fazer a
leitura individual ou coletiva, de acordo com a disposição do grupo ou
do(a) facilitador(a). Finda a leitura, faz-se a análise, estimulando a expressão
da turma que pode ser oral ou em desenho, dependendo de como a pessoa
ou grupo queira expressar-se (vivi a ocasião em que o silêncio foi a forma de
interpretação de algumas pessoas). Nas interpretações é possível apreender
a manifestação da identidade racial, problema do grupo participante. Feita
a exposição, fazem-se as observações necessárias, situando o presente para
projetar o futuro com o estímulo à promoção da auto-estima da criançada.
Memória, identidade e referência
Para apoiar a metodologia, recorri ao conceito de memória como o
órgão que armazena as experiências positivas e negativas e “que formam o
patrimônio cultural de cada pessoa” (DISTANTE, 1988, p. 88). A memória,
vinda das experiências com a escola, a igreja, os meios de comunicação, com as
expressões orais – piadas, música, anedotas, vaias etc. – mantém em evidência
uma clara referência ao passado escravo vivido pela ancestralidade negra no
Brasil. A introjeção desse passado fragmenta negativamente a identidade
da criança negra quando ela quer “reconhecer-se no passado e imaginar-se
no futuro” (MUSZKAT, 1986, p. 27). Distante define a identidade de uma
pessoa como a consciência de que o seu modo de ser, de viver e de falar seja
semelhante ou até mesmo possa identificar-se com o modo de ser, de viver
e de falar de um determinado povo ou de uma determinada comunidade
ou tribo (DISTANTE, op. cit., p. 83). Juntar os fragmentos da memória
constitui o processo de identidade de uma pessoa.
Pergunto: que orgulho tem a criança negra quando busca na memória a
história do seu povo? Qual o papel do seu povo na história do Brasil? Como
a família que coleciona a mesma memória administra as inquietações – ou
o silêncio – dessa criança?
É a ausência de referência positiva na vida da criança e da família, no
livro didático e nos demais espaços mencionados que esgarça os fragmentos
de identidade da criança negra, que muitas vezes chega à fase adulta com
total rejeição à sua origem racial, trazendo-lhe prejuízo à sua vida cotidiana.
Referências, segundo Distante, são pontos claros no próprio passado
(DISTANTE, op. cit., p. 84). Se a pessoa acumula na sua memória as
referências positivas do seu povo, é natural que venha à tona o sentimento
de pertencimento como reforço à sua identidade racial. O contrário é fácil
de acontecer, se se alimenta uma memória pouco construtiva para sua
humanidade. É a última experiência que a militância do Movimento Negro
depõe ao assumir o novo status – o status de pertencer ao povo negro – e
o mesmo depoimento tenho encontrado na maioria das crianças ou jovens
nas Oficinas de Auto-estima, que também chamo de Identidade Racial. Para
refazer o presente – a identidade – a Oficina leva ao caminho de volta – a
memória – aproveitando ou estimulando no prazer da leitura e, através
dessa, a construção da auto-estima. É tentar refazer a história individual
na história coletiva então desprovida, na maioria das vezes, de referências
encobertas na memória. Positivar o lado negro de cada criança, positivar o
passado escravo, através das histórias de resistências ou de simples amostras
de ilustrações de personagens negras. Nisto consiste a Oficina de Identidade
Racial.
As parcerias
Considerável número de escritores e escritoras têm contribuído para a
dinâmica dessa Oficina, inclusive com textos adequados para os diversos
níveis de leitura. São: Ana Maria Machado, a maior colaboradora; Joel
Rufino dos Santos, Ruth Rocha, Alaíde Lisboa de Oliveira, Giselda Laporta
Nicolelis, Mirna Pinsky, Isa Silveira Leal, Margarida Ottoni, Ronaldo Simãos
Coelho, Lúcia Pimentel Góes, Tenê e Rogério Andrade Barbosa. São livros
com 8 a 16 páginas que cobrem um horário regular de aula. Para jovens com
desenvoltura na leitura indico os livros de Júlio José Chiavenato, Lourenço
Cazarré, Barioni Ortêncio, Lúcia Ramos, Lucília Junqueira de Almeida
Prado, Renato Pallottini, Jair Vitória, Luiz Galdino, além de outros livros
dos escritores e das escritoras acima com a mesma temática. São livros para
serem lidos em casa, dado o maior número de páginas que contêm. Estas
parcerias têm sido presença constante nesta prática, pela seriedade com que
incluíram a questão negra no seu discurso. É bem possível que eu tenha
omitido o nome de alguém que compartilha desta literatura, por falta de
conhecimento.

Outros temas dentro da literatura infanto-juvenil
Outros temas podem também ser discutidos com a mesma metodologia,
como a questão indígena, a ecologia, o gênero, a sexualidade. A oferta do
material produzido atende às minhas necessidades de facilitadora da Oficina,
é só passar um tempo nas livrarias e/ou bibliotecas.
Nesta altura o sonho real continua. Tenho trocado tal experiência com
outras pessoas que já multiplicaram-na além da região metropolitana do
Recife.
Uma liderança de uma das Comunidades Negras Rurais disse que, quando
se olhava, olhava o povo onde ela nasceu e vive, tinha um sentimento tão
estranho de anonimato que ela não sabe e não pode expressar, ainda hoje,
tamanho era o vazio existente. Ela não tinha nenhuma ponte que a ligasse
ao passado. Não tinha memória, não tinha identidade, avalia. No momento
em que ela, junto com dois ou três companheiros, pegaram um fio da meada,
a volta foi fantástica; atravessaram a ponte e tudo reconstituiu-se. Hoje ela
e muitos outros e muitas outras sabem de onde vieram e sabem para onde
vão. A história de vida agora é outra. Hoje lá se fala “o meu povo”.
Visitando as Comunidades Negras Rurais do Estado, ouvi pontos de
identificação em que, com um estímulo a mais, os fragmentos sedimentarão
os processos de identidade racial, fundamental para que cada população
tome às mãos o comando do seu destino histórico no mundo. Continuarei
com o sonho da construção da biblioteca em cada lugar onde não existe
uma.
Ao Professorado
A Oficina de Leitura apresentada não constitui uma receita para ser
seguida à risca. A criatividade de cada facilitador(a) pode movimentá-la como
desejar. O termo facilitador(a) é próprio para a prática porque a função é
tornar fáceis as questões que as crianças encontram na discussão. Para isso,
esta pessoa tem que ser ou estar livre dos estereótipos arraigados na sociedade
brasileira e que corroem como metástase o corpo da sua diversidade racial.
Uma Oficina não é suficiente para crianças brancas ou negras
reconhecerem-se como seres diferentes, com histórias diferentes, nem
superiores nem inferiores. Uma Oficina é um momento de reflexão que
deve ser bem conduzida pelo(a) facilitador(a), de modo que as crianças
saiam dela fortalecidas – e não envergonhadas, brancas ou negras – para
continuar uma convivência onde os estereótipos consigam ser corrigidos e
ambos os grupos vivam com mais saúde, livres do racismo, já que o racismo
destrói quem o manifesta e quem é vítima. Uma Oficina pode dar seqüência
a tantas outras, quando convier. Mãos às obras, literalmente!
Eu estou acordada, terminando o texto e quero fazer deste sonho uma
realidade, tão real quanto a minha memória e a minha identidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGR ̆FICAS
ANDRADE, Inaldete Pinheiro de. Ensaio para uma Literatura Infanto-
juvenil Libertadora. Recife, 1986, mímeo.
________. Cincos Cantigas para se Contar. Recife: Produção Alternativa,
1989.
________. Pai Adão Era Nagô. Produção Alternativa. Recife, 1989.
CARVALHO, Bárbara Vasconcelos de. A Literatura Infantil: visão histórica
e crítica. 5a edição. São Paulo: Global, 1987.
CUNHA, Maria Antonieta Antunes. Literatura Infantil: teoria e prática. São
Paulo: Ática, 1983.
DISTANTE, Camelo. Memória e Identidade. In: Identidade e Memória.
Tempo Brasileiro,
no 95, Rio de Janeiro, out./dez de 1998.
ERIKSON, Erik H. Identidade, Juventude e Crise. 2a edição. Rio de Janeiro:
Zahar, 1976
MUSZKAT, Malvina. Consciência e Identidade. Série Princípios no73. São
Paulo: Ática, 1986.
PERROTI, Edmir. O Texto Sedutor na Literatura Infantil. São Paulo: Ícone,
1986.
ROSEMBERG, Fúlvia. Literatura Infantil e Ideologia. São Paulo: Global,
1985.
SILVA, Ana Célia da. A Discriminação do Negro no Livro Didático.
Salvador: CEAO/UFBa,1995.
ZILBERMAN, Regina. A Literatura Infantil na Escola. 2a edição. São Paulo:
Global, 1982.
________; LAJOLO, Marisa. Literatura Infantil Brasileira. História e
Histórias. São Paulo: Ática, 1984.





quinta-feira, 12 de abril de 2018

Lula entrou pra história sem precisar sair da vida

_(RODRIGO PEREZ OLIVEIRA, Doutor em História Social pela UFRJ, é Professor da disciplina Teoria da História na graduação e na pós-graduação da Universidade Federal da Bahia. Ele escreveu o artigo abaixo, texto sério, que merece leitura e reflexão.)_

*Lula entrou pra história sem precisar sair da vida*

Rodrigo Perez Oliveira,  Historiador e Professor da UFBA.

"Que Lula há muito tempo deixou de ser homem e se tornou uma instituição é consenso à direita e à esquerda. O que está em jogo, em disputa, é o significado da instituição, o que ela representa.

Lula é o maior corrupto da história do Brasil ou a principal liderança popular que esse país já teve?

A disputa está ai. No atual estado da situação não sobrou muito espaço para meio termo. Ou é uma coisa ou é a outra. Cada um que escolha seu lado.

Na condição de instituição, todo gesto de Lula tem dimensão simbólica, é lido e interpretado por todos, por detratores e admiradores. Lula pega o microfone e o país paralisa em frente à TV. Os admiradores choram. Os jornalistas a serviço da mídia hegemônica silenciam. Ninguém fica indiferente a uma instituição desse tamanho.

Lula sabe perfeitamente que está sendo observado, conhece muito bem o tamanho que tem e explora com extrema habilidade sua capacidade de fabricar símbolos. 

Aqui neste ensaio, trato de uma parte muito pequena da biografia de Lula, mas que talvez seja, na perspectiva simbólica, a mais importante. Talvez seja até mais importante os oito anos de seu governo.

Falo das 34 horas em que Lula esteve no sindicato dos metalúrgicos, sob os olhares do mundo, construindo a narrativa de seu próprio martírio.

Não falo em “resistência”, pois desde a condenação no Tribunal da Quarta Região, em 24 de janeiro, que o destino de Lula já estava selado. Os advogados cumpriram sua função, recorrendo a todos as instâncias e tentando um habeas corpus, mas todos já sabiam que Lula seria preso.

Por isso, seria ingênuo dizer que o que aconteceu em São Bernardo do Campo foi um ato de resistência. Lula é um político experiente demais para resistir em causa perdida.

Alguns companheiros e companheiras, no auge da emoção, tentaram usar a força. Lula fugiu da custódia dos trabalhadores e se entregou à Polícia Federal, pois sabe que contra o braço armado do Estado ninguém pode. Lula sabe que aqueles que ali estavam eram trabalhadores e trabalhadoras, pais e mães de família. Não eram soldados. Não eram guerrilheiros. A resistência não era possível.

Lula sabe que seria impossível sustentar aquela mobilização durante muito tempo e por isso não resistiu. Mas daí a se entregar resignado como boi manso para o abate a distância é grande, muito grande.

Penso mesmo que Lula fez mais que resistir, já que a resistência seria quixotesca, irresponsável. Lula pautou a própria prisão, saiu da posição de simples condenado pela justiça para se tornar o dono da narrativa. Lula foi sujeito do próprio encarceramento, deu um nó nas forças do golpe neoliberal.

Muitos achavam que Lula deveria ter fugido para uma embaixada amiga e de lá partido para o exílio no exterior. Confesso que também pensei assim. Mas Lula é muito mais inteligente que todos nós juntos.

Lula sabe que já viveu muito, sabe que não lhe sobra muito tempo de vida. O que resta agora é a consolidação da biografia, o retorno às origens, seu renascimento como ícone da esquerda brasileira, imagem que ficou um tanto maculada pelos oito anos em que governou o Brasil.

É que no capitalismo não existem governos de esquerda. Governo de esquerda só com revolução e Lula nunca foi revolucionário, nunca prometeu uma revolução.

Todo governo legitimado pelas instituições burguesas será sempre burguês. No máximo, no melhor dos cenários, será um governo de centro sensível às demandas populares. O lulismo foi exatamente isso: uma prática de governo de centro sensível às necessidades dos mais pobres. O lulismo transformou o Brasil pra melhor, com todos os seus limites, com todas as suas contradições.

Mas para encerrar a vida em grande estilo carece de algo mais. Era necessária a canonização política. E só a esquerda canoniza líderes políticos. A direita é dura, cinza, sem poesia.

O golpe neoliberal conseguiu reconciliar Lula com as esquerdas, o que há poucos anos parecia algo impossível de acontecer.

É que pra ser canonizado pelas esquerdas nada melhor que ser perseguido pelo poder judiciário, habitat histórico das elites da terra. Basta lançar no google os sobrenomes da maioria dos nossos juízes, procuradores e desembargadores e veremos os berços de jacarandá que embalaram os primeiros sonhos dos nossos magistrados.

É claro que Lula não planejou a perseguição. É óbvio que ele não queria ser perseguido. Se pudesse escolher, estaria tendo um final de vida mais tranquilo, talvez afastado da política doméstica e atuando nas Nações Unidas. Mas já que a vida deu o limão, por que não espremer, misturar com açúcar, cachaça, mexer bem e mandar pra dentro?

Lula fez exatamente isso: uma caipirinha com os limões azedos que seus adversários togados lhe deram.

Primeiro, ele fez questão de esgotar todos os mecanismos legais. A sentença de Moro, os votos dos desembargadores, os votos dos Ministros da Suprema Corte não são palavras ao vento. São “peças”, para falar em bom juridiquês, que ficarão arquivadas e disponíveis para a consulta, para análise.

Imaginem só, leitor e leitora,  os historiadores que no futuro, afastados da histeria e das disputas que hoje turvam nossos sentidos, examinarão a sentença de Sérgio Moro,  verão que o juiz não foi capaz de determinar em quais “atos de ofício” Lula teria beneficiado a OS para fazer por merecer o tal Triplex do Guarujá.

É como se Moro estivesse falando: "não sei como fez, mas que fez, ah fez".

E o voto dos desembargadores do TRF 4, atravessados de juízos de valor, quase sem relar no mérito da sentença?

E o voto de Rosa Weber? Por Deus, o que foi aquele voto de Rosa Weber?

“Sei que estou votando errado, mas vou continuar votando errado só porque a maioria votou errado. Uma maioria que só vai votar porque eu vou votar errado também.”

Lula, ao se negar a fugir, obrigou cada um desses togados a deixar impressos na história os rastros da própria infâmia.

Uma vez decretada a prisão, o que fez Lula?

Deu um tiro no peito? Se entregou em São Paulo? Foi pra Curitiba? Fugiu?

Não!

Lula se aquartelou no sindicado mais simbólico da redemocratização brasileira, o sindicado que representa as expectativas que nos 1980 apontavam para um Brasil mais justo, mais solidário.

No apogeu da crise que significa o colapso do regime político fundado na redemocratização, Lula decidiu encenar o seu martírio onde tudo começou.

Naquele que talvez seja o último grande ato de sua vida pública, Lula voltou às origens.

Protegido pela massa de trabalhadores, Lula não cumpriu o cronograma estipulado por Sérgio Moro. Cercado por uma multidão, o Presidente operário transformou o sindicato dos metalúrgicos numa embaixada trabalhista.

A Polícia Federal, o braço armado do governo golpista, disse que não usaria a força. A Polícia Federal sabia que o povo resistiria, que sem negociação não tiraria Lula do sindicado sem deixar uma trilha de sangue.

Lula negociou e, nos limites dados por sua posição de condenado pela justiça, venceu e humilhou a instituições ocupadas pelo golpe neoliberal.

Lula não estava foragido. O mundo inteiro sabia onde ele estava e mesmo assim o Estado brasileiro não foi capaz de prendê-lo no prazo determinado pela justiça golpista. Durante um pouco mais de 30 horas, Lula foi um exilado dentro do Brasil, como se São Bernardo do Campo fosse um República independente, uma república governada pelos trabalhadores.

Lula fez de uma missa em homenagem a Dona Marisa Letícia um ato político e aqui temos mais um lance simbólico do Presidente operário: restabeleceu as pontes entre a esquerda brasileira e a Igreja Católica, aliança que tão importante nos anos 1970, quando sob as bênçãos da Teologia da Libertação foi fundado o Partido dos Trabalhadores.

No palanque, junto com o Padre, estavam Lula e as futuras lideranças da esquerda brasileira. Lula dividiu seu butim em vida, tomou pra si esse ato mórbido, ao abençoar Boulos, Manuela e Fernando Haddad.

Lula unificou em vida a esquerda brasileira. Não só unificou, mas  pautou, apresentou o programa, cantou o caminho das pedras.

Lula deixou claro que o povo mais pobre precisa comer melhor, precisa consumir, viajar de avião, estudar na universidade. Lula, o operário que durante a vida inteira foi humilhado por não ter diploma de ensino superior, foi o professor de milhões de brasileiros que sonham com um país melhor.

É como se Lula estivesse dizendo: “num país como o Brasil, a obrigação mais urgente da esquerda é transformar o Estado burguês em agente provedor de direitos sociais”.

Lula discursou durante uma hora em rede nacional, se defendeu das acusações. Não foi uma defesa para a justiça, mas sim para o tribunal moral da nação. Não foi um discurso para o presente. Foi um discurso para a história.

Não, meus amigos, acuado pelas forças do atraso, Lula não deu um tiro no próprio peito.

Lula mandou trazer cerveja e carne e fez um churrasco com seus companheiros e companheiras. Foi carregado pelos seus iguais, foi tocado, beijado. Saliva, suor, pele.

Lula não deu um tiro no próprio peito.

Getúlio é gigante, sem dúvida, mas também era herdeiro das oligarquias. Lula é o único trabalhador que, vindo da base da sociedade, conseguiu governar e transformar o Brasil. Lula já é maior que Getúlio.

Diferente de Getúlio, Lula entrou pra história sem precisar sair da vida."

https://jornalggn.com.br/noticia/lula-entrou-pra-historia-sem-precisar-sair-da-vida-por-rodrigo-perez-oliveira

sábado, 3 de março de 2018

Não me digas mais nada - Fernando Pessoa

Não me digas mais nada. O resto é a vida.
Sob onde a uva está amadurecida.
Moram meus sonos, que não querem nada.
Que é o mundo? Uma ilusão vista e sentida.

Sob os ramos que falam com o vento,
Inerte, abdico do meu pensamento.
Tenho esta hora e o ócio que está nela.
Levem o mundo: deixem-me o momento!

Se vens, esguia e bela, deitar o vinho
Em meu copo vazio, eu, mesquinho
Ante o que sonho, morto te agradeço
Que não sou para mim mais do que um vizinho.

Quando a jarra que trazes aparece
Sobre meu ombro e a sua curva desce
A deitar vinho, sonho-te, e, sem ver-te,
Por teu braço teu corpo me apetece.

Não digas nada que tu creias. Fala
Como a cigarra canta. Nada iguala
O ser um sonho pequeno entre os rumores
Com que este mundo.

A vida é terra e o vivê-la é lodo.
Tudo é maneira, diferença ou modo.
Em tudo quando faças sê só tu,
Em tudo quanto faças sê tu todo.

Fernando Pessoa
(1888-1935)

Mais sobre Fernando Pessoa em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

FELIZ OLHAR NOVO (Carlos Drummond de Andrade)



"O grande barato da vida é olhar para trás e sentir orgulho da sua história. O grande lance é viver cada momento como se a receita da felicidade fosse o AQUI e o AGORA. Claro que a vida prega peças. É lógico que, por vezes, o pneu fura, chove demais... Mas, pensa só: tem graça viver sem rir de gargalhar pelo menos uma vez ao dia? Tem sentido ficar ch......ateado durante o dia todo por causa de uma discussão na ida pro trabalho? Quero viver bem. O ano que passou foi um ano cheio. Foi cheio de coisas boas e realizações, mas também cheio de problemas e desilusões. Normal. Às vezes se espera demais das pessoas. Normal. A grana que não veio, o amigo que decepcionou, o amor machucou. Normal.

O próximo ano não vai ser diferente.

Muda o século, o milênio muda, mas o homem é cheio de imperfeições, a natureza tem sua personalidade que nem sempre é a que a gente deseja, mas e aí? Fazer o quê? Acabar com seu dia? Com seu bom humor? Com sua esperança?
O que eu desejo para todos nós é sabedoria! E que todos saibamos transformar tudo em uma boa experiência! Que todos consigamos perdoar o desconhecido, o mal educado. Ele passou na sua vida. Não pode ser responsável por um dia ruim... Entender o amigo que não merece nossa melhor parte. Se ele decepcionou, passe-o para a categoria três, a dos colegas. Ou mude de classe, transforme-o em conhecido. Além do mais, a gente, provavelmente, também já decepcionou alguém.

O nosso desejo não se realizou? Beleza, não tava na hora, não deveria ser a melhor coisa pra esse momento (me lembro sempre de um lance que eu adoro: CUIDADO COM SEUS DESEJOS, ELES PODEM SE TORNAR REALIDADE).
Chorar de dor, de solidão, de tristeza faz parte do ser humano. Não adianta lutar contra isso.

Mas se a gente se entende e permite olhar o outro e o mundo com generosidade, as coisas ficam diferentes.

Desejo para todo mundo esse olhar especial.

O próximo ano pode ser um ano especial, muito legal, se entendermos nossas fragilidades e egoísmos e dermos a volta nisso. Somos fracos, mas podemos melhorar. Somos egoístas, mas podemos entender o outro.
O próximo ano pode ser o máximo, maravilhoso, lindo, espetacular... ou... Pode ser puro orgulho! Depende de mim, de você! Pode ser. E que seja!!!
Feliz olhar novo!!!






















terça-feira, 21 de novembro de 2017

Cheguei à melhor idade!




Agora sou sexy! Com a graça de Deus chegando aos 60 anos de idade bem vividos.


Na tenra idade, tive os meus momentos de irreverência. Qual o(a) jovem que não os teve?

Vivi cada fase em sua época sem ter pulado nenhuma: a infância, a adolescência, a fase adulta e ágora entrando na velhice. Velhice? Posso chamar assim? Uns chamam de Terceira idade, outros dizem que essa é a fase em que a pessoa apresenta mais experiência de vida, podendo ensinar muitas coisas interessantes. Nada mal. Pelo menos o que rege o estatuto do idoso, é que ele me enquadra nesse perfil a partir de agora. Portanto, cuidado aí com o que dizem de mim! Posso enquadrar na lei ... rsrsrsrsrs ... O certo é que não deixei nenhuma fase para ser vivida depois. A psicologia explica que não é bom viver a adolescência na fase adulta. Encarar a vida de forma leve e aproveitar cada etapa da vida pode ser a chave para tornar a passagem do tempo feliz Não me considero velha. Não importa o que diga o espelho. Mas prometo a mim mesmo que a partir de hoje vou buscar uma vida mais ativa, saúde é o que interessa. O que matava o velho era a aposentadoria, agora ninguém mais se aposenta... rsrsrsrs...
Das pedras que a vida generosamente me deu? Não as retribui. Com a misericórdia de Deus, o incansável amor de meus pais, o incentivo dos irmãos e a colaboração indispensável do meu marido construí o meu castelo (minha família).
Com o azedume dos limões? Fiz a mais saborosa limonada de cada dia, resiliência não me faltou.
As rugas? Cada uma representa uma história e a beleza da passagem pela vida. Apagar essas marcas seria rasgar o livro existencial de cada uma.
Como uma boa paraibana que sou, “SIM SENHOR”, sem a subserviência na expressão da palavra, nunca aceitei opiniões prontas, redondas de ninguém, sempre busquei trilhar o meu caminho tirando as minhas próprias conclusões, experimentando o sabor das massas e das maçãs.
Os momentos de glórias? Ah! Esses momentos estão eternizados no coração do Pai. A Ele toda honra e toda glória! A Ele agradeço por ter chegado inteira nesta nova fase da vida.
A minha oração hoje é de agradecimento. Mas também tenho um único pedido a fazer: que eu seja instrumento da bênção de Deus para a minha casa e para o mundo.


















terça-feira, 18 de julho de 2017

DEMOCRACIA IMPEDIDA


O Conversa Afiada reproduz desafiadora entrevista do professor Juarez Guimarães a Marco Weissheimer, do Sul21, e convida o amigo navegante a ir ao post sobre o livro "Democracia impedida", de Wanderley Guilherme dos Santos:
‘Não há nada mais desmobilizador hoje do que 2018. Entre nós e 2018 há um abismo’

Lula não será candidato. Nem haverá eleição em 2018 - Por ​Prof Juarez: é preciso entender a "Democracia impedida" - publicado 17/07/2017

“O golpe em curso no Brasil se insere no processo internacional da contrarrevolução neoliberal que está construindo estados constitucionais não democráticos pelo mundo inteiro. Os golpistas estão divididos e enfrentam dificuldades para lidar com a crise de legitimidade decorrente do golpe, mas estão unificados programaticamente. E esse programa põe em questão princípios fundamentais do pensamento democrático do pós-guerra, gerando um cenário de instabilidade , ódio e intolerância”. A avaliação é do cientista político Juarez Guimarães, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que aponta graves conseqüências desse quadro nos planos nacional e internacional. “Os valores fundamentais da paz, da liberdade, dos direitos humanos, do pluralismo e da tolerância estão em questão e é por isso que falo que estamos vivendo uma crise civilizacional”, diz o cientista político em entrevista ao Sul21.
Juarez Guimarães analisa os acontecimentos recentes da vida política brasileira sob a perspectiva de uma linha histórica mais longa, aponta um déficit de consciência da esquerda sobre o que está acontecendo no Brasil e no mundo, defende a centralidade da campanha por Diretas Já e adverte sobre os riscos de depositar todas as esperanças em 2018 para a superação da crise atual. Para ele, quem achar que estamos vivendo apenas um intervalo no processo de normalidade democrática, pode avaliar, por exemplo, que a sentença do juiz Sérgio Moro contra o ex-presidente Lula deve ser reformada em segunda instância, uma vez que não tem base jurídica nem provas. No entanto, diz, estamos vivendo um estado de excepcionalidade onde a exceção é a regra. “Moro é corrompido politicamente e está exercendo seu mandato de juiz de forma partidária”. E acrescenta:
“Qualquer pensamento político que se estreitar no plano da legalidade jurídica estará cometendo um gravíssimo erro. Com o STF, tal qual está funcionando, com a Constituição tantas vezes violada como foi, qual a dificuldade em praticar mais uma violação? Não há nada mais desmobilizador, hoje, do que 2018, porque entre nós e 2018 há o abismo. Se não enfrentarmos a possibilidade do abismo corremos o risco de ser tragado por ele”.
Sul21: Diante de uma conjuntura extremamente instável, que muda rapidamente, como, qual a sua avaliação sobre a situação política que o Brasil está vivendo?
Juarez Guimarães: Estou trabalhando com a ideia de uma contrarrevolução neoliberal, que dialoga com elaborações que estão sendo feitas pela ciência política brasileira. A ciência política brasileira, majoritariamente, se posicionou, através da Associação Brasileira de Ciência Política e da Associação Latino-americana de Ciência Política (Alacip), caracterizando o que aconteceu no Brasil como um golpe. O cientista político sênior do Brasil, Wanderley Guilherme dos Santos, escreveu o livro “A democracia impedida. O Brasil no século XXI” (FGV Editora), cujo título deve ser bem entendido.

A “democracia impedida” contém a denúncia do que ele chama de golpe parlamentar, que é uma figura nova na ciência política. Em regimes democráticos representativos, forças políticas utilizam-se de aparatos previstos na Constituição, reinterpretando-os de forma ilegítima, forçando o sentido previsto na Carta Constitucional, para promover um golpe parlamentar. Esses golpes são ditos parlamentares, diz Wanderley Guilherme dos Santos, porque os atores são parlamentares que necessitam de uma cobertura de legitimação do Judiciário. Eles são, por natureza, instáveis e carecem de legitimidade, razão pela qual procuram a via anti-democrática.
O autor acrescentou o subtítulo “O Brasil no século XXI” por entender que esse golpe parlamentar não é um ser estranho na atual conjuntura das democracias ocidentais, embora ele não queira fazer, do que ocorreu no Brasil, um paradigma. Está apenas chamando a atenção para o fato de que existe uma crise das democracias ocidentais e que fenômenos semelhantes, de captura da soberania popular e de um encaminhamento anti-democrático das instituições a partir de seu próprio interior, encontra alguma tipicidade, hoje, no funcionamento dessas democracias. Ele revisita Karl Polanyi, recuperando a oposição dramática entre democracia e capitalismo para pensar esse novo contexto.
As forças capitalistas empoderadas estariam retirando dimensões fundantes da democracia. O autor opõe essa visão a de T.H.Marshall, autor de “Cidadania, Classe Social e Status”, que via uma relação mais virtuosa entre democracia e capitalismo, o que levaria a um aprofundamento crescente das condições de cidadania até se chegar a um ponto em que a própria ideia de classe social estaria subsumida a um status de igualdade que seria construído. Wanderley Guilherme dos Santos reivindica a ideia de que as democracias representativas, tais como nós as conhecemos, são eventos recentes na história ocidental, eventos do pós-guerra, mergulhados hoje em um processo de grande tumulto e instabilidade.
Trata-se de um livro muito importante e é preciso chamar a atenção sobre ele. A mídia brasileira praticamente o ignorou. O principal cientista político do país, que estuda a democracia há quase cinco décadas, escreve um livro importante como esse e ele é ignorado pela mídia brasileira. Nós estabelecemos uma afinidade com essa interpretação e também com a interpretação do cientista político Luis Felipe Miguel, da Universidade de Brasília, que caracteriza o que nós estamos vivendo como uma situação de exceção. Foi rompida a Constituição e estamos numa situação marcada pelo arbítrio, onde os fundamentos constitucionais de 1988 já não estão valendo. Nesta situação, o Executivo funciona de uma forma ilegítima, o Legislativo funciona com uma alienação de representação, de um modo absolutamente autonomizado em relação à sociedade, e o Judiciário emite jurisprudências arbitrárias de forma seqüencial. Cada caso é um caso, dependendo das conveniências e dos interesses políticos envolvidos.
Luis Felipe Miguel, concordando com essa avaliação de que houve um golpe parlamentar, elabora a ideia de uma crise do estado democrático brasileiro, onde os três poderes estão trabalhando em um regime de exceção. Nós dialogamos com esses dois conceitos – golpe parlamentar e estado de exceção – para trabalhar a ideia de uma contrarrevolução neoliberal.
Sul21: Quais seriam as características desta contra-revolução neoliberal?
J
uarez Guimarães: Esse conceito parte da ideia de que, para pensar a conjuntura brasileira na sua imprevisibilidade e elevado grau de arbítrio, é preciso recorrer à história longa, ao processo inacabado e interrompido de construção de uma república democrática no Brasil e aos impasses históricos dessa construção. Ao inserirmos a narrativa do golpe de 2016 na história brasileira, não pretendemos interpretar esse golpe a partir do que ocorreu em 1964. O que queremos é identificar uma reiteração de sentido, isto é, a incapacidade das classes dominantes brasileiras de conviver com a democracia naquilo que ela tem de substantivo, como a distribuição de poder e riqueza e de alargamento de sua base social.
Revisitamos, por essa via, os clássicos de interpretação do Brasil, principalmente o livro “A Revolução Burguesa”, de Florestan Fernandes, que interpretou 1964 como uma revolução burguesa brasileira que conjugou capitalismo selvagem e autocracia. As classes dominantes brasileiras, muito prematuramente, viveram o dilema distributivista pela pressão das classes populares em um espaço restrito de manobra, em função de sua dependência em relação às classes dominantes internacionais. Pressionada desde baixo e com um espaço restrito de manobra, ela optou historicamente por conjugar capitalismo com autocracia e essa é a história da ditadura militar.
Sul21: Na sua opinião, qual a relação que existe entre a narrativa do golpe de 2016 e a do golpe de 1964?
Juarez Guimarães: O sentido do golpe de 64 está sendo reiterado agora, com uma grande diferença. Além dessa pressão dos de baixo para conseguir um alargamento da distribuição de poder e das riquezas, e do fato de a economia brasileira ser hoje muito mais associada ao capitalismo internacional do que era em 64, temos uma mudança epocal da tradição liberal. Essa tradição liberal é responsável pela formulação dos princípios civilizatórios dominantes no mundo. No entanto, esses princípios, nas últimas quatro, cinco décadas, passaram por uma grande mudança em nível global.
O neoliberalismo já tem uma história e já há uma literatura especializada sobre esse tema, em grande parte desconhecida pela esquerda brasileira, que estuda esse fenômeno epocal e suas consequências no sentido de desconstruir o princípio da soberania popular nas democracias ocidentais. O livro “Undoing the Demos”, de Wendy Brown, trata dessa revolução discreta do neoliberalismo. Estamos falando, portanto, de uma época histórica, não de uma conjuntura específica. O que está ocorrendo no Brasil seria a atualização das classes dominantes nacionais se colocando contemporaneamente nesta revolução epocal do neoliberalismo. Essa revolução epocal reduziu o chamado liberalismo social a uma nota de pé de página dos livros que hoje compõem o paradigma econômico dominante.
Se estamos identificando uma época, é necessário também identificarmos as conjunturas no interior dessa época de quatro ou cinco décadas. Esse golpe no Brasil é a expressão de um terceiro período epocal do neoliberalismo. Se formos olhar sua história, o neoliberalismo teve uma proto-origem nos anos 30 e passa por um primeiro período de acumulação no pós-guerra. Ele alcançou, pela primeira vez, o governo de dois estados centrais, Estados Unidos e Inglaterra, no final dos anos 70, construindo, em nome da liberdade, uma agenda do Estado mínimo nos anos 80. Essa é a primeira fase de irrupção do neoliberalismo na vida política do Ocidente.
Nos anos 90, houve então uma reação, uma tentativa do Partido Democrata, dos Estados Unidos, originário do New Deal e a favor de um keynesianismo, e também da socialdemocracia europeia. Neste processo, ocorre uma absorção da agenda do neoliberalismo tanto pelo Partido Democrata norte-americano como pelo chamado novo trabalhismo de Tony Blair. Aí temos um primeiro momento de fusão do Brasil com esse novo movimento, através do governo Fernando Henrique, que tentou conectar o país nessa ideia de terceira via. Essa terceira via já não era, então, algo intermediário entre o liberalismo e o socialismo, mas sim entre liberalismo e neoliberalismo. O que resultou dos anos 90 foi uma desconstituição das bases programáticas e identitárias tanto do Partido Democrata norte-americano quanto das tradições socialdemocratas europeias, inclusive do Partido Trabalhista inglês.
Entramos neste século vivendo uma terceira fase do neoliberalismo, uma fase mais predatória, onde suas dimensões antidemocráticas ficam mais evidentes. A partir de 2008, quando as dívidas financeiras foram estatizadas, a contradição entre a gestão da dívida pública e as democracias vai para o primeiro plano. Vemos, então, essa dimensão antidemocrática do neoliberalismo irromper de forma mais evidente. O golpe no Brasil se insere nesta narrativa de uma contrarrevolução neoliberal que está construindo estados constitucionais não democráticos. Não são estados militarizados, como na época da guerra fria, mas estados constitucionais não democráticos.
Sul21: Do ponto de vista do pensamento político de esquerda, quais seriam as principais implicações dessa contrarrevolução neoliberal, tanto no plano nacional como internacional?
Juarez Guimarães: Há muitas questões interpretativas sobre essa nova realidade que desafiam os marxistas. A primeira é como entender que o neoliberalismo tenha saído mais forte da crise de 2008. Muitos marxistas e outros intérpretes do neoliberalismo previram ali o fim do neoliberalismo e da globalização neoliberal. Este foi o segundo fim proclamado do neoliberalismo. O primeiro foi com a derrota dos governos conservadores de Reagan e Thatcher para alianças socialdemocratas nos anos noventa. Também aí se teorizou, de modo impressionista, que o neoliberalismo estava no fim. No entanto, ele ressurgiu com mais força. Como entender isso? A grande resposta a isso estaria em estudos feitos sobre a tradição neoliberal que se perguntam, no sentido gramsciano, se o neoliberalismo é apenas um evento superestrutural da política ou se ele já é expressão da constituição de uma classe capitalista transnacional. Isto é, se ele já é a expressão de uma vontade política classista que se organiza para além dos estados nacionais.
Há um artigo muito interessante de William Carroll e Jean Philippe Sapinski sobre esse tema, que utiliza os conceitos clássicos de Marx, de classe-em-si e classe-para-si, para abordar esse fenômeno. De 1970 a 2008, assinalam os autores, as exportações de mercadorias cresceram 6,9% no mundo. De 1970 a 2000, os investimentos globais diretos se multiplicaram 48 vezes. Já os empréstimos bancários internacionais, entre 1977 e 2008, se multiplicaram 55 vezes. Isto é, empoderou-se muito a financeirização do mundo. Esses autores dizem que esse período é de expansão da classe-em-si, um momento de expansão dos interesses financeiros que estavam alargando os seus espaços de reprodução.
A partir da crise de 2008, do acúmulo de suas vitórias e de expansão do setor financeiro, estaria ocorrendo a passagem da classe-em-si para a classe para-si. Essas classes transnacionais já estariam sendo capazes de formular um projeto de uma ordem internacional capaz de submeter estados nacionais aos paradigmas por ela formulados.

A Mont Pèlerin Society reúne, através da Atlas Economic Research Foundation, quatrocentos think thanks, articulados internacionalmente. (Reprodução: Muckety – Mapping connections of the rich, famous & influential
Os autores se perguntam: qual o lugar dessa passagem da classe-em-si para a classe-para-si? Onde esses capitalistas estão ganhando essa consciência mundial e formulando um programa internacional de dominação? No Estado norte-americano, fundamentalmente, desde a época Clinton, mas também durante a era Obama, e no processo da unificação europeia. Nestes dois lugares estatais está se dando a formação dessa consciência política nova de uma classe capitalista transnacional. Eles também se perguntam pelos locais onde se organiza essa vontade política. A resposta é que isso se dá, fundamentalmente, em três lugares. Em primeiro lugar, na Organização Mundial do Comércio (OMC), que reúne 133 países e é o espaço onde se resolvem disputas, se produzem consensos estratégicos e se estabelecem regulações comuns.
O segundo lugar seria o Fórum Econômico Mundial de Davos, onde as mil corporações mais importantes do planeta comparecem anualmente. O papel do Fórum de Davos é formular e hierarquizar as agendas políticas. E o terceiro é a Mont Pelèrin Society, organização criada em 1947 para promover valores e princípios liberais e pode ser considerada como a origem do neoliberalismo. Essa sociedade reúne, através da Atlas Economic Research Foundation, quatrocentos think thanks, articulados internacionalmente para organizar a cobertura intelectual desse paradigma.
Sul21: Em que medida esse movimento internacional já estabeleceu raízes no Brasil também?
Juarez Guimarães: Quando estudamos o caso brasileiro e constatamos as contradições no interior da coalizão golpista, vemos que por trás de um Temer há um Maia e que por trás do Maia há um outro e por trás desse outro há um programa que unifica todos os golpistas. Os golpistas estão divididos e enfrentam dificuldades para lidar com a crise de legitimidade decorrente do golpe, mas estão unificados programaticamente. Essa unificação programática e esse background internacional tornam possível fazer operações de reposição política como ocorreu recentemente na França. Lá, tínhamos uma direita derrotada eleitoralmente e uma social-democracia derrotada na sua identidade. De repente, surge um outro, que repõe o fundamento político desse programa e recompõe uma maioria parlamentar. Que milagre político é esse?
Esse milagre político só pode ser entendido a partir de uma visão integrada dessa contrarrevolução neoliberal. Estamos vivendo uma espécie de abalo sísmico civilizacional. O que está em jogo é um princípio de civilização que reorganiza os fundamentos da vida em comum. O liberalismo keynesiano expressa uma visão de sociedade que tem como referência a ideia de soberania popular e é um lugar onde se disputam e se forma os direitos dos cidadãos. É esta ideia civilizacional que está em questão com essa contrarrevolução neoliberal.
Sul21: Como vê as possibilidades de resistência e de enfrentamento desta contrarrevolução?
Juarez Guimarães: A insuficiência de consciência leva a uma desorganização da vontade política. A direita está à frente da esquerda em função disso. Ela está mais contemporânea e mais unificada programaticamente do que a esquerda, em nível internacional. O que a direita brasileira fez foi se amparar neste novo paradigma internacional para, com base nele, quebrar um acúmulo sincrético da esquerda brasileira. O que resulta desta contrarrevolução neoliberal não são nem regimes estáveis no plano nacional nem uma ordem internacional estabilizada, pelo contrário. O que temos visto como fenômeno intrínseco a este desmantelamento dos fundamentos de pactuação das democracias ocidentais é um grau crescente de ilegitimidade e de instabilidade política no centro dessas democracias. Então, essa contrarrevolução neoliberal não gera estabilidade, mas instabilidade permanente e um processo de degradação política.
Temos que entender melhor o que significa essa erosão dos fundamentos da soberania popular. A erosão da soberania popular pode se dar através da erosão da soberania de estados nacionais com a transferência para organismos internacionais de decisões que deveriam ser tomadas soberanamente pelos povos. Além disso, ataca-se os fundamentos democráticos da competição eleitoral através de um grau de financeirização inaudito das eleições. Hoje, por exemplo, a probabilidade de reeleição de um membro do Congresso norte-americano está em torno de 93% ou 94%. Isso significa que o sistema político já está de tal maneira oligarquizado, já se desprendeu do controle popular de uma tal maneira que ele não diz mais respeito ao cidadão comum ou diz muito pouco. Ele se reproduz no seu próprio processo de financeirização.
Junto com isso temos um processo de degradação profunda da formação da opinião pública democrática nestes países, inclusive nos Estados Unidos onde mais existiam leis anti-trustes, que proibiam a verticalização. Em 1996, houve um ato que reviu esses fundamentos de regulação e hoje a mídia norte-americana está concentrada em sete grandes empresas. Isso provoca um processo de corrupção da opinião pública. O que ocorre no Brasil em termos de concentração midiática não é uma excentricidade, mas algo que se verifica inclusive nos Estados Unidos.
Ao invés do pluralismo, o que vemos hoje é o crescimento de uma cultura do ódio e da intolerância. Os fundamentos da vida pública democrática em comum estão sendo erodidos. Isso está levando a uma situação de grande instabilidade e a fenômenos como a eleição de Trump. Vemos hoje também uma profunda desorganização das relações internacionais e a configuração de um contexto global onde o cenário de guerra não se tornou apenas possível, como provável. Os paradigmas de regulação estão em crise. A própria ONU está impotente. Estamos lidando com o crescimento potencial de conflitos bélicos. Isso deve fazer parte da imaginação da esquerda contemporânea. Os valores fundamentais da paz, da liberdade, dos direitos humanos, do pluralismo e da tolerância estão em questão e é por isso que falo que estamos vivendo uma crise civilizacional.
Sul21: Falando da conjuntura mais de curto prazo, a sua vinda a Porto Alegre coincidiu com o anuncio da sentença de condenação do ex-presidente Lula pelo juiz Sérgio Moro. Na sua avaliação, como esse fato impacta o atual cenário político do país? Ele provoca alguma mudança qualitativa na atual conjuntura ou é apenas mais um capítulo do processo do golpe?
Juarez Guimarães: A resposta depende da consciência que você tiver. Há quem trabalhe com a ideia de que o que está ocorrendo no Brasil é apenas um intervalo irregular de uma normalidade democrática, uma espécie de cicatriz no corpo da democracia brasileira. Seguindo essa ideia, poderíamos avaliar que a sentença de Moro, como não possui nenhuma base jurídica, certamente seria revertida na segunda instância. Mas eu penso que não é disso que se trata. Acho errado chamar Moro de juiz parcial. Isso é conceder muito a ele. Na verdade, é um juiz corrompido politicamente. Ele está exercendo o seu mandato de juiz de forma partidária, contra a Constituição e contra o povo brasileiro. É um juiz corrompido e deve ser assim chamado publicamente. A corrupção mora ali em Curitiba. Eu fico indignado quando as pessoas falam da “República de Curitiba”. Não há nada de República ali, mas sim o contrário. É o princípio da corrupção da República que está organizado ali.
Então, se eu achasse que o que está acontecendo fosse apenas uma cicatriz no corpo da democracia brasileira, poderia ter esperança de que esse juízo tão corrompido fosse revertido numa segunda instância. No entanto, eu penso que nós estamos vivendo um período de excepcionalidade onde a exceção é a regra. Portanto, a decisão da segunda instância dependerá da correlação de forças políticas que se estabelecer quando ela for julgar. Qualquer pensamento político que se estreitar no plano da legalidade jurídica estará cometendo um gravíssimo erro, pois nós estamos em um estado de exceção. Com o STF, tal qual está funcionando, com a Constituição tantas vezes violada como foi, qual a dificuldade em praticar mais uma violação?
O fundamento da lógica do golpe é que não deve haver mais democracia nem soberania popular no Brasil e que a esquerda não deve mais ser competitiva em eleições. A candidatura do Lula pode ser impugnada de diferentes maneiras. Ele pode levar uma pena leve de dois anos em prisão domiciliar, com perda de direitos políticos, por exemplo. Eles podem argüir a inelegibilidade de Lula, compondo com qualquer tipo de sentença ou podem simplesmente mudar a regra eleitoral.
Nós não estamos trabalhando em um período de normalidade democrática. Se não soubermos capturar o tempo dos golpistas, eles utilizarão o tempo contra nós. É aí que entra a questão das Diretas que foi decidida no último congresso do PT e que frequenta o discurso dos movimentos sociais brasileiros e de outros partidos como o PSOL e o PCdoB. Mas esse discurso ainda não se tornou uma campanha. É como se a esquerda brasileira estivesse, ao mesmo tempo, denunciando o golpe, dizendo “não queremos Maia”, mas não organizando uma campanha pelas Diretas.
Alguém poderá dizer que o fato desta campanha não ter deslanchado é um limite do povo brasileiro. Eu acredito, porém, que os limites fundamentais estão no grau de consciência da esquerda. Esse grau de consciência ainda aponta: calma, ainda haverá eleições em 2018, é preciso ter um pouco de paciência, vamos aguardar e acumular para 2018. O problema é que existe entre hoje e 2018. Não nada mais desmobilizador, hoje, do que 2018, porque entre nós e 2018 há um abismo. Se não enfrentarmos a possibilidade do abismo corremos o risco de ser tragado por ele.

FONTE:https://www.conversaafiada.com.br/politica/lula-nao-sera-candidato-nem-havera-eleicao-em-2018