Paulo de Tácio
O Brasil e a Paraíba têm uma dívida enorme com o povo de Lucena, que carece de uma urgente reparação. E é muito simples entender. Até a metade dos anos 80, apesar de naquela época não possuirmos a Balsa, a ligação com a cidade se dava exclusivamente pela velha e curvilínea estrada de chão batido, muito menos havia ainda a expansão imobiliária na área praieira, o município de Lucena era um dos que se mostrava mais promissor em todo o Litoral Norte.
A pesca da baleia era o grande empregador e responsável pela maior parte da receita do município. Lucena não possuía outras fontes de renda que não a pesca e a ainda insipiente fruticultura. O turismo, pior que hoje, sequer era uma aposta. Mesmo assim não havia desemprego. Vivia-se da pesca. Pesca que era abundante de xarel, de camarão, cação, lagosta, lagostim, e tantos outros peixes retirados dos currais, das redes de arrasto ou das pequenas embarcações tainheiras e camarãozeiras. À vela ou movida com pequenos motores a diesel.
Mas era a baleia quem fazia a festa de todos. Dos turistas que iam a Costinha e Cabedelo assistir a chegada dos barcos pesqueiros, mas, sobretudo, das centenas de famílias que tinham naquela atividade o seu sustento. E eram muitas as pessoas que possuíam a carteira assinada na Cia de Pesca do Norte do Brasil. A pesca da baleia em Lucena foi iniciada no distante ano de 1911, e Costinha sempre foi o porto-pesqueiro, o ancoradouro para onde eram levadas as baleias.
Em Costinha, que é um distrito de Lucena, a pesca da baleia mais que fonte de emprego e renda era a garantia de alimentação de baixo custo para a população residente e para todos os paraibanos de baixa renda, em razão do preço baixo de sua saborosa carne. Da baleia tudo se aproveitava, do óleo à carne que se podia comer feito bife ou charque aos ossos que eram triturados e viravam ração animal ou adubo vegetal. Tudo se transformava.
Entre os meses de junho e dezembro eram pescados diariamente entre seis e oito baleias em alto-mar da Costa paraibana, e levadas para o ancoradouro de Lucena. A chegada dos barcos pesqueiros, nos finais de tarde e “boquinhas” da noite transformava-se numa grande festa, sendo, à época, o grande atrativo turístico, atraindo várias lanchas lotadas de curiosos para assistirem a operação beneficiamento, que durava, em média, 18 minutos por animal. Eram baleias Mink, Cachalote e Espadarte.
No ano de 1985, depois de uma campanha insidiosa nacional contra a pesca, que contou, inclusive, com uma música da dupla Roberto e Erasmo Carlos, que embalava os protestos, a pesca foi proibida no litoral brasileiro, sob a alegação de que era aqui o berçário delas. Não convém discutir neste espaço se verdade ou mentira que a parte paraibana da costa sirva mesmo de berçário para as Mink, Cachalotes e Espadartes, embora saibamos que elas continuam presas fáceis dos modernos e sofisticados navios-pesqueiros islandeses, chineses, japoneses e coreanos que desrespeitam o cinturão das 200 milhas nacionais.
Mas, proibição à parte, o que importa mesmo é que até agora nada foi feito para compensar as viúvas e os viúvos da pesca, que continuam órfãos, desempregados, subempregados. Muitos morreram de espera. Todos filhos de tantas promessas feitas pelos vários governantes de plantão. A fome, a miséria, o descaso compõem o resto do enredo dessa história.
D
aí o porquê de que Lucena tem uma enorme dívida a resgatar junto aos Governos Federal e Estadual. É chegada a hora da compensação. Que ela venha por investimentos que devem ser feitos na nossa tríplice vocação natural: a piscicultura, o turismo e a fruticultura, ou por outros caminhos, como o Porto de Águas Profundas, o Complexo Portuário-Pesqueiro Lucena/Cabedelo ou pela Zona de Processamento e Exportação, a Zona Franca Lucena/Cabedelo, que pode ser outra solução.
PAULO DE TÁCIO é jornalista, advogado e empresário de radiodifusão.
Graças a Deus veio a proibição! Vivam as baleias assim como todos os animais vítimas dos lucros e ambições humanos
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